A pequena grande menina

Então a encheu de doçura
mas também colocou uma pitada de loucura
Fez teu rosto de menina
mas lhe obrigou a ser madura
A fez loira para que se diferencia-se na multidão
mas a fez baixinha para que não a notassem tanto
Lhe deu vontades para abraçar o mundo
porém encurtou os seus braços para que ela não conseguisse

Colocou um sorriso em teus lábios
e jogou tristeza nos seus olhos
para que ela não fosse feliz demais e nem triste demais
Deu-lhe um nariz de palhaço para que conseguisse divertir os olhares tristes
mas esqueceu de lhe entregar um espelho
Ensinou-lhe conceitos
fazendo com que ela nunca entendesse as regras

Encheu-lhe de sonhos
contudo esqueceu de lhe falar sobre a realidade
Esqueceu de colocar ar em seu pulmão
mas engrandeceu teu coração
Deu-lhe ouvidos pequenos para que não ouvisse os erros do mundo
porém deu-lhe uma alma grande para acolher os errantes

Ensinou-lhe a rezar
para que conversasse com ele
Não lhe deu uma beleza exuberante
e nem uma feiura assustadora
Lhe deu inteligência
mas a fez lerda
para que não se tornasse chata

Entregou-lhe a sensibilidade
mas escondeu nela uma dose de frieza
A criou forte como um touro
e frágil como uma flor
Colocou pedras em seu caminho
mas lhe ensinou a continuar

A fez timida
mas não a ponto de não poder um dia escrever sobre si

Dois Corpos

O silêncio reinava absoluto
Ainda que houvessem dois corpos ali
Corpos com movimentos perdidos
Intactos entre si

O silêncio incomodava
Não era falta do que dizer
Era excesso de palavras
Amedontrava-lhes pecar
Pecavam pelo medo
O silêncio tornava-se obsoleto

Olhos perdidos
Ouvidos aflitos
Mãos euforicas
Pernas inquietas
Continuam a andar
Sentem, mentem

Lado a lado
Separados por um muro
Não de concreto
Mas concreto

O silêncio continua a incomodar
Pensa ela em um jeito de quebrar
Enquanto ele sorri
Pensa ela no que ele está a pensar

Pensa ela em embriguez
Ao menos uma vez
Embriagar-se de palavras por um minuto
Não ter nada a dizer
Dizer muito

Passam-se dois minutos
Parace-lhes ter andando muito
Parece- lhes não ter andado nada
Passam suas almas
Intactas
Terminam com uma palavra
Adeus!


Ah, Deus!

Outrora

Mãe sempre diz para deixarmos as coisas onde encontramos

Mas eu tinha me esquecido
Agora vim devolver o obtido

Ou o perdido

Deixo tudo aqui e sigo por ai

Vou sem malas

Sem nada


Devolvo o violão sem cordas
Entrego-te as conversar demoradas
Devolvo meu sorriso sincero
Guardo para mais tarde os abraços singelos
Devolvo os cuidados

Alias, estes lhe deixo de presente

Porque nenhum cuidado é suficiente


Deixo aqui os cafés que não tomamos juntos

Levo todos os momentos injustos

Deixo as tardes que não sentamos no banco da praça

Escondo meu rosto sem graça

Vou a locadora devolver os filmes que não assistimos

Deixo no circo o tempo que não nos divertimos


Coloco uma luva em todas as vezes que nossos dedos não se entrelaçaram

Deixo em cima do cômodo todo o passado

Apago a melodia que eu nunca compus

Guardo os beijos para quando não houver luz

Jogo fora as preocupações em não perder

Me perco


Rasgo a carta que um dia eu escrevi

Fecho as portas que abri

Devolvo a proteção

Escondo meu coração

Vou embora

Talvez eu volte

Outrora

Talvez não

Surto

Eis que o dicionário define:

'''Surto''' é uma crise, um excesso de fúria. Momentos de inlucidez.

Acredito que surtar é nos perder de nossa essencia. A ansiedade toma conta e tudo se torna aflição. Queremos abraçar o mundo, mas os braços não dão conta. É assim que tenho me sentido esses dias. As coisas andam devagar demais para a minha pressa. A aflição tomou conta e me concentrar em qualquer coisa é uma missão quase impossível. Anotações e mais anotações do que tenho que fazer, a mente anda tão ocupada que não consegue mais se lembrar. Sim, decidir nosso caminho profissional é muito complexo. Me pego dividida entre carreira e dinheiro, afinal o mundo é cruel. Quero sim seguir um caminho profissional e por enquanto sem pensar tanto em dinheiro, mas quantas portas vão se abrir para isso? Quanto tempo terei que esperar? O relógio andou sendo meu pior inimigo. Eu preciso de uma certa estabilidade, ainda bem que o coração anda ameno, senão eu não aguentaria. Se bem que Deus não dá um fardo maior do que aguentamos carregar. É um momento de transição e preciso me reestabelecer profissionalmente. Acho mesmo que surtei e agora só me resta encontrar valvulas de escape para não deixar que esse surto me impeça de seguir em frente.

Mailarina


Mãe e filha estão sentadas sozinhas nos bancos vazios do circo, alguns metros as separam da tenda colorida, lá fora chove. Estavam ali em silêncio por longas horas. Até que a menina tira a mochila das costas e questiona a mãe:
- Mãe me ensina a ser bailarina?
- Filha, isso se aprende na infância.
- Mas mãe eu quero ser bailarina.
- Por que minha filha?
- Porque eu estou cansada de ter que me fantasiar de palhaça para arrancar um sorriso dos lábios alheios. Eu não quero mais ser assistente do homem das facas, estou com medo do globo da morte e hoje a noite terem que revesar lugar com aquele gorila assustador.
- Filha, você quer ser bailarina por que elas usam roupas bonitas?
- Não mãe, quero ser bailarina porque elas deixam seus corpos serem levados pelo embalo da música. Porque elas sabem dar cada passo com uma sútil leveza, se equilibram nas pontas dos pés, se equilibram. Bailarinas dançam mesmo quando não há música, são doces e exprimem calma. Bailarinas não choram.
- Mas filha você precisa se vestir de palhaça, você precisa encantar a plateia com todas as suas mágicas e máscaras.
- Mãe, me ensina a ser bailarina?
- Mãe, me ensina a dançar?
A mãe assustada com aquele pedido, pegou a mão da menina e a levou até o seu camarim, mostrou-lhe uma velha roupa de bailarina, tirou o sapato e lhe mostrou os calos nos pés. Disse-lhe que bailarinas quando dançam não choram, mas também não sorriem. A menina abismada com aquela situação pensou logo em vestir sua roupa de palhaça para alegra a mãe, mas a mãe, mais rápida, colocou a mão em seu ombro e disse:
- Filha me ensina a dançar? Eu desaprendi a equilibrar.
A menina então calçou a velha sapatilha da mãe, vestiu o colan, a saia, levou a mãe para o picadeiro e sem música alguma as duas tentaram dançar. A mãe ajudou a menina a ficar nas pontas dos pés. A menina agradeceu com um sorriso no rosto.
- Mãe, me ensina a dançar?
- Filha, me ensina a ser bailarina?

Dedico este texto ao meu amigo Marcos Medeiros que tanto me encanta com seus textos e também me inspira, como esse que é baseado em seu texto, Pailhaço.

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