Ah, Deus!


a lágrima escorreu lentamente
pairou em meus lábios
eu sentia agora o gosto amargo da mentira
as lágrimas embassavam os olhos
e fazia o coração não acreditar no que via
sentia-me nua
o corpo soluçou de frio
haviam me comido por dentro
fixei os olhos na faca que entrava em meu peito
talvez o sangue me esquentasse
alguns abraços amigos me aqueceram o coração
mas onde foi que eu deixei o meu coração?
acho que o perdi
tal como o pote de açucar
que agora me parece ter se tornado sal
só por essa noite
só por esses dias
eu não serei uma puta com meu coração
vou deixa-lo solitário
deixa-lo se aquecer com os carinhos amigos
denovo estou na chuva e sem sombrinha
acho que já perdi as contas de quantas vezes isso aconteceu
só não vou me deixar ser levada pela correnteza da tristeza
porque o trem da vida passa as 11h30 e eu num quero perdê-lo
espero as mãos que vão se estender e me ajudar a subir nele
vou chorando, rindo, cantando e dormindo
num vagão distante de tudo todas as magoas e decepções
uma hora será hora de subir no trem e eu só terei uma palavra a dizer:

Adeus!

Ah, Deus!

deliciosamente simples


As coisas mais bonitas da vida nascem da simplicidade
Numa busca diária e lenta pela doçura tênue, quase esquecida
Nos mindinhos que se tocam quase com vergonha
se procurando no escuro da noite
Nos olhares deliciosamente perdidos um no outro
quase como uma poesia recitada em meio a Praça Sete
e o menino solitário que a escuta
são as palavras
que o coração se recusa a dizer, em palavras
Sentimentos permeados de ternura
Carregados de uma simplicidade quase infantil
Os braços abraçam em proteção
Antes de qualquer beijo a lembrança da amizade

Antes de qualquer relogio a certeza de que os ponteiros giram depressa demais
para os corações que pulsam um de encontro ao outro.

momento

um pequeno momento
doce encantamento
é só o que sinto
viver é sucinto
como um verso de bolero
uns passos incertos
nas noites de boemia
das velhas poesias


e o que guardo agora
é o sentir bem de outrora

memorial

Eu espero que na velhice você se lembre de segurar a minha mão ao descer do ônibus.
Espero que você não enjooe de acordar ao meu lado.
Que se lembre de me dar um abraço ao chegar cansado do trabalho, mesmo tendo acordado comigo.
Por vezes esquecido, quero que me conte das noites em que me deixastes sozinha para se aquecer nos braços de outrém, porque por algum motivo você se sentiu sozinho e vazio.
Quero ver alegria e me sentir bem por estar com você como nos velhos tempos.
Quero sentir que os ponteiros dos relógios estão girando rapido demais uando eu estiver ao seu lado, como na primeira vez em que nos vimos.
Espero que você se lembre de me cobrir com o edredon nas noites frias, quando eu me descobrir de tanto me mexer.
Quando minha pele já não for mais a mesma, eu ainda vou esperar suas que suas mãos contem nossos anos juntos nas minhas rugas.
Quando eu estiver caducando na velha cadeira de balanço, lembre-se de me aceitar, afinal eu sempre fui meio caduca mesmo.
Na minha morte, não chore, lembre-se que o fim de alguma coisa é o recomeço de outra, que geralmente é muito melhor.
Agora vamos embora, porque o tempo não espera a gente e a vida é muito curta pra ficarmos esperando todos os semaforos fecharem, feito japonês.
Vamos continuar com os velhos drinks, ainda somos jovens e podemos morrer jovens.
Então viva cada dia como se fossemos envelhecer rápido demais.

simples

As vezes é fácil ser feliz com um pedaço triangular de bolo de chocolate, uma colher e três amigos. É encontrar a doçura num pequeno momento, tão doce que o chocolate até enjoou. O chão por vezes se parece o melhor lugar do mundo e dá vontade de dividir a vida pra sempre, assim como o pedaço de bolo que na hora da fome parecia a coisa mais deliciosa e eterna do mundo. É montar uma comunidade alternativa e leva-la a sério a ponto de se manter junto em todos os momentos. É saber que você tá protegido dentro de um casulo e que qualquer coisa que faltar terá alguém pra segurar a sua mão, mesmo que as pernas não consigam te deixar ficar em pé ou que todo o ar do mundo não lhe pareça suficiente. De repente, a gente percebe que quase nada é importante e que quase tudo importa. Num instante descobrimos que não estamos sozinhos, as boas e velhas amizades e as novas estão lá, para nos amparar. De repente, viver intensamente, cometer loucuras, se tornam pouco importantes e o simples toma conta. A gente encontra nossa verdadeira essencia, aquela coisinha simples guardada bem aqui no fundo. E ai eu percebo que nem preciso de mais nada, que nem preciso fazer algo insano, que só preciso mesmo de um pouco de carinho, atenção e respeito. Ai todas as pessoas do mundo ficam pra trás e todas as coisas são esquecidas, tudo se resumo a nós quatro, o chão, o bolo, a amizade, o carinho, o respeito e a bondade escondida em cada um. Compartilhado esses sentimentos, encontramos o simples, pronto não precisa de mais nada. No fim de tudo um pequeno e singelo presente. Pequeno fisicamente, mas grande simbolicamente e que trouxe uma grande alegria. As vezes é bom se encontrar com o simples e nessas horas concordo com o Mario Quintana "a vida é breve".
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