Já nem sei mais quantas noites acordada. Já nem sei mais quantas vezes no escuro acordo para ver se ele ainda respira, ainda que com toda a dificuldade possível. Obrigatoriamente, amanhã a vida começa cedo e ainda que não consiga ou ainda que eu não dê conta, todas as pessoas me esperam lá com seus relógios. Enquanto todas as pessoas sonham, eu me reviro na angústia. Nos dias em que não me obrigo ver o sol nascer, minha noite começa as 6h da manhã.
Sabe moço, quando você me jogou no mundo, receio que tenha me dado uma mochila maior que eu. Vivo a arrasta-la, isso me causa muito cansaço. Logo, não tenho tempo para amar, não tenho tempo de trocar minhas roupas, não tenho tempo de... Você podia ao menos não ter inventado o relógio, ai já me ajudaria um bucado. A solidão tem tomado conta, mesmo acompanhada. Mas sabe qual é? Amanhã eu não quero satisfazer ninguém além de mim. Criei um roteiro, porque sabe alguns capítulos valem muito a pena. Aqueles com participação especial, mas que vocês escreve a história. Meu lugar feliz? É um banco dentro de mim que meu velho sentou-se por muitas vezes. Hoje apenas eu vou visita-lo no lugar feliz dele. Lá se vai a noite e eu peço calma e um pouco de paz e principalmente, sono, muito sono. Boa noite, moço, moça e a senhorinha de 82 anos que ficou ouvindo essa história.
