"Sérgio Sampaio, volta"

No Brasil os cantores marginalizados, considerados loucos, trágicos entre outros adjetivos, se tornam mitos e têm uma carreira de sucesso para além da morte. Cito aqui Cazuza, Renato Russo, Raul Seixas e Tim Maia. Porém eu conheci um desses cantores que sofreu um processo reverso, Sérgio Sampaio. Lembro-me agora de um trecho de sua música Ninguém vive por mim quando ele diz: “doido que não se situa”. Acho que ele era isso para sua época. Ele é um cantor pouco conhecido, mas para quem gosta de música popular brasileira ele é “ouvida obrigatória.”.

Os fãs do queridinho da Globo que me desculpem, mas Roberto Carlos, para mim, só foi rei até eu conhecer seu conterrâneo, o também capixaba, Sérgio Sampaio. Catorze anos depois de sua morte, eu o conheci. Não sei se uso deslumbrada, boba, extasiada ou encantada para designar o sentimento do momento. Suas músicas têm um ritmo envolvente, gostoso e intrigante, e as letras transbordam genialidade e nos fazem viajar em outro universo. Trechos como "os automóveis estão invadindo a 'simples cidade” e ritmos como marchinhas, samba, MPB, tango, tropicália entre outros.

Sérgio Sampaio não deteve o glamour que Roberto Carlos detém. Pelo contrário, ele foi marginalizado pelas gravadoras e pelo público. A mídia não deu, e nem dá, a ele sua devida importância. Apesar disso ele acarretou fãs renomados como Chico César, Zeca Baleiro, João Bosco, Luiz Melodia entre outros. Creio que quem tem a oportunidade de ouvi-lo se torna um fã assíduo, diria até um seguidor.

O gênio escondido foi um freqüentador aplicado das noites cariocas, vivia pelos programas que envolviam música e bebidas, era alguém fora do sistema, usava drogas e bebia muito, chegou a morar na rua e passar fome. O cantor foi descoberto por Raul Seixas, que quando o ouviu cantar, viu nele uma promessa. Os dois se tornaram grandes amigos e Raul gravou o primeiro compacto de Sérgio Sampaio.

Em 1972 Sampaio teve seu primeiro e único grande sucesso, a marcha-racho Eu quero é botar meu bloco na rua. Na época em que a ditadura militar predominava sua música ressoou como um desabafo. E no palco do Festival Internacional da Canção ele cantou seguido por um coro uníssono de milhares de vozes. Quanto a isso Sérgio Sampaio reclamava de que suas canções era para o povo cantar e que só era possível botar o bloco na rua se a população o acompanhasse. Mas sua fama de indisciplinado não o deixou ser popular. O compacto vendeu mais de 500 mil cópias, só por causa do hit, tanto que o sucesso não se repetiu nos Lp’s posteriores. Após o hit, a mídia tentou transforma-lo em um “Roberto Carlos”, mas ele não quis e gravou seu próximo disco independente, desvinculado de gravadoras.

Ele faleceu em maio de 1994, vítima de sua vida desregulada e de uma crise pancreática. Poucas pessoas foram ao seu enterro e a mídia falou pouco sobre o assunto. Hoje, 15 anos após sua morte deixo a você leitor mais interessado e atento essa história desse cantor enrustido que apesar de ser pouco conhecido merece ser ouvido por suas canções ímpares. Encerro indicando uma das músicas que é homenagem ao cantor, a música Sérgio Sampaio, volta da banda Cérebro Eletrônico. A canção deixa uma saudade gostosa de um sucesso que não existiu.


Texto baseado no site http://www.samba-choro.com.br/artistas/sergiosampaio

2 comentários:

HÉLCIO disse...

O "Escrito" sobre o eterno Sérgio Sampaio é interessante e nos leva a um questionamento sobre quais os motivos que não o levaram a atingir uma maio visibilidade no cenário nacional; assim como ele,outros compositores(Geniais)tiveram o mesmo problema.Ex:Tom Zé,Zé Geraldo
Um dos fatores que podem ter contribuído para o "não sucesso total" , foi a questão do Regime Militar,pois a impressa e as gravadoras não deram o devido valor a este(s) Compositor(es), pois suas músicas não "agradavam muito" os detentores do poder da época.
Diferentemente da Jovem Guarda( anos 60) e da Tropicália(anos 70) as composições de Sérgio Sampaio eram mais engajadas e "desabafas" fazendo deste um corajoso e distinto compositor.
Seu sucesso(parcial) deve-se ao seu "descobridor": Raul Seixas.E também da parceria inicial e amizade(eterna) que estes criaram.
Como "o que é bom é bom mesmo" temos ainda hoje pessoas que "descobrem e se encontram" nas músicas deste(s) grande(s) mestre(s, que são "Superiores" ao seu tempo.
Continue na descoberta de composições e compositores passados,porém "eternos"!

Hélcio Theodoro de O. Santos
"Hélcio Brasil"

João Killer disse...

Ótimo texto como sempre. Pra quem não conhece Sérgio Sampaio, acho que através desse texto podemos ter uma ótima noção de quem foi, e de abrir uma porta para o conhecimento de quem foi. Até mesmo porque com o aperitivo que você deu, não tem como não gostar. Muito bom a observação “Os fãs do queridinho da Globo que me desculpem, mas Roberto Carlos, para mim, só foi rei até eu conhecer seu conterrâneo, o também capixaba, Sérgio Sampaio.” Bom te ler. Ótima dica.

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