Doce ou amargo

Doce ou amargo? Amargo. Chocolate meio amargo, limonada, café com pouco açúcar, cerveja e chá gelado, de preferência de limão. Esses têm sido os ingredientes desses dias. Chá gelado de limão, tenho tomado muito ultimamente, amargo e delicioso. A conversa do buteco é sempre uma casinha de sapê, filhos e uma vida mansa. Lá fora o ônibus me espera para uma hora de viagem e o dono do bar já me avisa que a vida não será assim. Açúcar demais causa problemas de coração, abaixa a pressão e nos deixa mais leves e fracos.
Mais uma cerveja? Sim, quero ir para um mundo não tão real, um mundo amargo e ao mesmo tempo doce, doce porque meu corpo fica leve, mas não fraco. Quero não ser eu por uns instantes, quero não ser tímida ou menininha. Quero levar meu corpo junto dos meus sonhos e ser extremamente forte. Quero dançar sem medo ou vergonha, cantar e jogar pra fora tudo que está aqui dentro. Quero abraçar meus amigos e o garçom do bar. Dizer para as pessoas o que sinto ou simplesmente me fechar no meu canto e viver um mundo só meu.
Acho que me embebedei da vida e agora preciso dormir para sonhar, tudo anda tão real que as luzes já não me encantam mais tanto assim. A vida vai passando por osmose. Vou vivendo devagar, mas não é para não faltar amor e sim para não sobrar amor. O fato é que depois de uma cerveja é preciso um doce, dá glicose e reanima. Algo mudou, o paladar mudou, mas ainda preciso do doce.

boneca de pano e o boneco de lata

- Ô Boneca-de-Pano, você está triste comigo?
- Talvez...
- Mas então por que você está sorrindo?
- É que o sorriso é costurado.
- Mas se eu te abraçar, vou te machucar com minhas latas.
- Não faz mal, aqui dentro é tudo feito de algodão.

Trecho retirado do blog da Rita Apoena achei muito sensacional e quis traze-lo para cá.

Clarisse e os suspiros

Suspiros. O sol saiu com má vontade, as nuvens não sabiam ao certo se queriam chorar e Clarisse continuava sentada comendo suspiros.
-O que combina com suspiros?Ela questionou.
Talvez o tédio, o oscío, a solidão.
- Guaraná!!! Respondeu o senhor da lanchonete, lhe dando uma latinha.
De repente, a chuva resolve cair, as nuvens choram de alegria e Clarisse tira sua sombrinha se levanta leva os suspiros com ela e deixa o refrigerante para trás.
O moço lhe pergunta:
- Vai sair nessa chuva?
E a menina com um sorrisso bobo responde:
- Porque eu iria esperar a próxima?!
O vento sopra forte e Clarisse deixa cair os suspiros pelo chão, um a um eles vão se desfazendo e sendo levados com a água da chuva. A menina sai correndo e a sua sombrinha começa a ser levada pelo vento e algumas gotinhas de chuva começam a tomar o seu corpo. Com o calor do dia ela começa a gostar dos pingos de chuva, eles parecem refrescar todo o calor da sua mente e do seu coração. Então ela joga a sombrinha no chão e deixa que a água molhe seu corpo. Sentiu a sensação de alegria tomar conta dela. Nos lábios sorrisos, cantoria e o corpo dançava. Alguns estranhavam e outros dançavam ao lado dela.

Clarisse percebeu que não precisava ter medo da chuva e que se molhar não era de tudo ruim. Algumas chuvas passaram e outras virão e agora só lhe resta aguardar as próxima.

Foto retirada do site : blue blus essa sombrinha é pra quem tá revoltado com a chuva.


Mindinho

Então o dedo mindinho dele tocou o dela e ela sentiu seu corpo estremecer. Sairam caminhando e conversando asssuntos casuais com os mindinhos entrelaçados. Mais alguns passos e o indicador, o polegar e todos os outros dedos foram tomando conta da mão de Clarisse. Ele a segurou, não como os casais que entrelaçam os dedos, mas sim como pais que seguram suas crianças. Ele tocava agora na mina que estava sua suave mão. Clarisse arrepiou, gritou de alegria por dentro e por fora tentou disfarçar, os passos ficaram tortos, as pernas tremiam demais. O coração da menina não cabia dentro dela e ela achava que ia sofrer um infarto ali, bem ao lado dele.
Ele começou a mostra-la o cinetoscópio e Clarisse tentava prestar atenção, mas de mãos dadas com ele era deveras difícil. Ele explicava cada detalhe da "engenhoca" e contava a sua história, a menina mantinha o olhar atento, reparou na sua camisa dos beatles que ela tanto gostava, no velho all star azul e tentou se concentrar de novo. Ele começou a falar de um velho filme e relembrou a trilha sonora, ela tentou guardar o nome das bandas que não conhecia para se inteirar depois.
Passaram-se quatro horas, a menina foi se despedir do cinetoscópio e ele tirou o disco que girava na vitrola. Não havia mais nada. Os dedos dele foram se soltando da mão dela. Clarisse segurou o mindinho com toda força, mas foi sem sucesso. Ele pegou suas malas e foi. Ela pegou sua sombrinha de bolinhas e deu carona para algumas pessoas pelo caminho. Nunca mais se viram, mas nunca mais é muito tempo.
Tirinha retirada do site do Ryot.

500 dias com ela ou de verão como preferirem.


Não, eu não vou escrever uma crítica sobre esse filme. Só quero relatar aqui minhas imprenssões e as relações que criei dele com o mundo. Já fazia algum tempo que eu não ia aos cinemas de shopping de BH. O vicio pelos cinemas de bairro tá parrudo. Mas este era o único jeito de assistir ao tal filme. Os barulhos de pipoca, a falação e o entre sai de gente me incomodou um pouco, mas meus olhos estavam grudados na tela. Eu não fui esperando uma comédia romântica besterol americano, sabia que seria muito melhor e não me decepcionei.
Com pouco tempo de filme, eu já me indentifiquei com o Tom. Ele acredita no amor fielmente e isso faz dele um cara sensível. Se o personagem fosse real eu não pensaria duas vezes e me casaria com ele. Diferente das outras comédias românticas, Tom não fica com seu grande amor. Acho que o problema maior das pessoas que acreditam no amor é que esse acreditar nesse sentimento não basta. Você pode amar alguém, mas "só" isso não é o suficiente.
Tom acreditava que só podia ficar com Summer e que ela era seu grande amor. Lhe parecia que ninguém mais era suficiente. Ele a achava linda e gostavam das mesmas coisas, só podia ser ela. Mas ela encontrou um outro alguém para achar que só podia ser ele. Tom tenta a sorte com várias outras garotas, porque é isso que a gente faz. Começamos a procurar outra Summer, no fundo a gente sabe que num vai ter e procura só para nos provar que tem que ser aquela pesssoa e que nenhuma outra é suficiente. Em um momento ele diz: "- Não quero esquecer, quero ela." Sim, é isso. Não queremos esquecer queremos fazer a pessoa gostar da gente.
Sai do cinema lembrando do poema quadrilha do Drummond. Existem muitas pessoas que acreditam no amor, mas talvez elas precisem se encontrar e não dá pra fazer ninguém gostar da gente. Acho que é por isso que nós, os que acreditam no amor, sofremos tanto, sempre acreditamos que aquela é a última pessoa de nossa vida e que se não for ela não será mais ninguém. Mas esse "mais ninguém" só dura até a próxima paixão. O difícil é se adaptar e entender isso agora.
Quando estamos apaixonados tudo na pessoa parece lindo. Assim como Tom eu já me apaixonei a primeira vista e achei tudo lindo, por dentro e por fora. Não foram 500 dias, mas foi um bucado. Quando acabou, bebi como tom, quebrei um copo ao invés de pratos e , tá admito, achei mesmo que se não fosse ele não seria mais ninguém. Agora depois do filme aguardo minha próxima paixão, sem magoas ou ressentimentos do passado, pensando apenas como algo que foi vivido. E aguardar o dia que eu vou encontrar alguém que acredite no amor e esteja no mesmo "tom" que eu.Enquanto isso eu vou alimentar uma paixão platônica pelo tal Joseph Gordon-Levitt com esse cabelinho grande e bagunçado que sempre me causam uma impresão de sinceridade. De quem saiu de casa e não se preocupou em transmitir por fora algo que tem por dentro. Os olhinhos pequenos de quem vê o mundo pelo buraco da fechadura e as camisas de botões denunciando que é um jovem idoso. Pena que o tom não é real. Lá se vai a vida e a quadrilha do Drumond segue adiante.

Dança

dança contida, medida, escondida
passos curtos, justos, lúcidos
balanço tímido, hibrido, retorcido
gingado torto, morto, bobo


dançar, todo mundo tem vontade, mas as vezes tem vergonha.

Indiferença


Coração frio, a mão não sua, as pernas não tremem, no olho nenhuma lágrima brota, na cabeça nenhuma aflição, indiferença é só isso. Dentro de mim mora alguém e não é um anjo, mora alguém que fica escondido e que raramente se mostra. Mora alguém que não sente medo, que não sente vergonha, que não sente dor, que não sente amor, que não sente. Esse alguém é forte. A vida é dura. É preciso ser forte para aguenta-la, é preciso ser muito forte. E nessas horas eu não posso ser só eu, eu preciso do alguém que mora dentro de mim. A menininha doce e bonequinha que age com o coração e que mora aqui fora não aguentaria os trancos da vida, ela ia só sofrer, e sofrer para que?

Minha mãe costuma dizer que a pior dor é a que a gente tá sentindo. Eu vejo tanta razão nisso.Ultimamente a vida tem sido muito difícil ela tem me tirado tudo, amigos, dinheiro, esperanças e até mesmo vidas. Mas não ando triste. Não ando agindo com o coração, ele adormeceu e a razão está reinando por aqui. Faz alguns dias que não sonho, a realidade me deu um tapa na cara e agora estou do lado dela. Isso me fez mais forte, não estou alimentando nenhuma dor.Levei todas as situações ao seu extremo máximo e percebi que eu vou sobreviver a qualquer coisa que eu vou acordar no outro dia as 7 da manhã, vou trabalhar, vou estudar e terminarei a minha jornada as 22:30 do mesmo jeito, como sempre foi.

Com tantos sonhos e tantas delicadezas me parecia que eu num ia aguentar um monte de coisas e quando tudo deu errado eu me vi de pé enquanto o furacão girava. Nenhuma dor pode nos derrubar, é preciso não alimenta-las, porque assim elas morrem, são como as pessoas que morrem se você não alimentar lembranças, vai esquecer que elas se foram. Só existe uma solução, temos que ser frios e indiferentes.As vezes ficar vivendo tudo o que nos acontece magoa e dói, então é melhor mesmo ignorar. Eu que sempre colocava o coração na frente de tudo o que me acontecia e achava tudo o apocalipse. De repente, acordei e comecei a colocar a razão diante de tudo.É muito bom sair e me divertir e beber, mas a vida me cobra mais que isso, o mundo lá fora tem responsabilidades, chefes, dinheiro e gente de todo tipo e quando eu for lá fora tenho que ser forte e estar preparada para tudo. Agora estou.

Certas coisas não têm nenhum jeito e nenhuma solução, são assim porque são e é só isso, não vale a pena se martirizar e ficar tentando resolver, o melhor mesmo é levar a situação ao extremo e perceber que você vai agüentar qualquer coisa. O coração grita é claro, mas tem que deixar berrar e esperar ele se acalmar para conversar com ele.

Todo poeta, sente dor, mas carrega consigo uma certa dose de loucura, de indiferença e de frieza. Nenhum poeta é só amor, doçura e sensibilidade. É por isso que por vezes eles matam alguém em seus poemas. Poetas carregam consigo acidez ao lado da sensibilidade.É como no filme laranja mecânica, a loucura pode fazer bem, ela não é de todo ruim e precisamos dela. Precisamos mesmo.

Esses dias minhas poesias seriam objetivas, contrariando qualquer poesia.Quem mora dentro de mim? A indiferença. É ela que está comandando esses dias, não sinto dor alguma, alegria, arrependimento, perda, raiva, nada. Quando alguém pergunta sobre meu sofrimento eu digo que ele não existe, estou indiferente a tudo. A faculdade eu já não ligo mais, o sofrimento alheio não me comove e o vazio não me incomoda. É tudo indiferença, mas eu estou forte e tem me feito bem. A indiferença levou os meus sorrisos atoa e deixou um rosto mais sério, mas mais forte. Não sei até quando vai durar. Mas aprendi a lidar com minha sensibilidade que ainda existe, só precisei mescla-la com minha loucura e encontrei o equilibrio quase perfeito. Faltam alguns sonhos, mas de resto está tudo bem. Assim como a loucura a indiferença também pode ser boa, elas ajudam a não alimentar a dor. A Natália um pouco mais ácida e um pouco menos bonequinha que muitos conheceram há um tempo atrás parece ter ressurgido e agora é assim que vai ser. Isso traz maturidade e força e deixa um pouco da menininha de lado. Ambas existem e agora as duas se mostram mais. É só isso.

Domingo legal mesmo sem o Gugu

Certas coisas parecem um presente da vida. Essas meninas ai vieram embrulhadas e tudo. A vida nos dá porradas, mas ela dá uma cama fofinha para amaciar a dor. Foi mais ou menos assim esses dias. Domingo sempre foi um dia morto, mas meus dois últimos domingos foram de alegrias e muitas alegrias. Sabe essa coisa que amizade é a melhor coisa do mundo, isso se tornou fato nos últimos domingos.
Ontem o dia teve sorrisos demais, alegria demais, intensidade demais. E como diria a Débora é tudo culpa dessas moças ai de cima. A gente se diverti com papai noel na loja, dá abraço coletivo na Sandim, derruba cerveja, achamos que a rua da bahia nunca foi tão familiar e para terminar vimos cachorros - coelho.
Tomara que esse dia de alegria e de muitas alegrias se repita muitas vezes, foi um dia de coração cheio com vocês, que venham muito mais.

As aventuras de Natália e João

-"Ai a gente encontra com um anão e um cara de cabelo verde que levam a gente para uma festa num cinema"... Frase do João.
Podia ser só mais um domingão do Faustão, mas essa semana teve dois domingos e nenhum teve Faustão. Domingo não é um dia propicio para sair, mas as coisas andam de um jeito que todo dia virou dia para sair. Eis que o João me vem todo animado:
- Vou para qualquer lugar Nati.
Essa não é uma frase boa pra mim que sou super indecisa, mas tudo bem vamos lá.
Tão tá vamos para A Obra.
Cena 1: Nós dois na porta da Obra e uma chuva do cacete.
Pergunta ao segurança:
- Tá cheio ai?
- Tem duas pessoas.
Cena seguinte: As duas pessoas saem.
Cena 3
A chuva não passa e falamos que poderiamos ir para o Jack, começa a loucura:
- Vamos pegar um taxi até o Jack João?
- Ai vem um.
- Tá cheio, esse também.
- Outro cheio, cheio, cheio...
- É deixa para lá.
- A Obra vai encher quando a chuva passar. (Esperança)
Cena 4: 2 horas depois e a Obra tem 6 pessoas, são meia noite.
- Ótimo vamos para a Velvet tá todo mundo indo pra lá.
- Tá, vamos.
João e Natália saem andando completamente desconsolados da vida e achando que a noite dos dois seria uma merda.
Cena 5: João e Natália encontram dois conhecidos da garota. Um anão e um cara de cabelo verde.
- Oi
- Oi
- E ai para onde vocês tão indo?
- Para a Velvet e vocês?
- Para uma festa no cinema, bora?
Natália olha com cara de interrogação para João e seus olhos pedem que ele responda, pois era uma dúvida muito grande para ela.
João sem hesitar responde.
- Uai vamos.
Cena 6: Os quatro seguem para o carro. O cara de cabelo verde e o anão dizem que a festa vai ser boa. Natália ainda em dúvida e João pensando: - Já estamos lascados mesmo então tanto faz.
Cena 7: Natália e João começam a conversar por olhares e decidem entrar.
Chegam lá e dizem:
- Legal esse lugar né.
- Curti demais.
- Então João uma cerveja?
- Claro, vamos lá.
Mal sabiam eles que essa frase se repetiria a noite toda.
Cena 8: Um ventilador, uma cerveja, uma música, um papo com novos amigos, uns caras de óculos engraçados e Natália e João.
Cena 9: Mais cerveja, muita dança, coisas balançando, confusão com a luz e muitos xixis.
Cena 10: Acho que o anão num estava bem mais.
- João vc tá bem? Tô bebado, mas tô legal e você?
- Acho que tomamos cerveja demais.
Cena 11: O cara do cabelo verde ressurgi. Já é alguma hora da madrugada e tem um filme estranho no telão.
Pula partes
Cena 12: Natália dorme no cinema, enquanto João continua frenético com a música e os novos amigos. Natália acorda e diz:
- Cadê o João.
Cena 13: Natália encontra João sentado e já cansado. São quase cinco da manhã.
Eles vão para a fila pagar. Natália paga e senta no cinema para esperar João, já não há filme na tela e nem forças para a garota ficar em pé.
Cena 14: Senta um rapaz ao lado de Natália.
- Quer casar comigo?
- Não.
Cena 15: João chega
- Vem Nati
- Que bom que você chegou.
- Te tirei de um filme de terror.
- Nossa!
Todos na fila riem.
Cena 15: Os dois vão embora.
- João você sabe ir embora?
- Sim.
Cena 16: Os dois chegam no ponto e têm companhia. Um homem começa a dizer que acha que o ônibus que João e Natália vão pegar não passa naquele dia. João e Natália ficam muito confusos embora tenham certeza que o ônibus passa, continuam no ponto e lá vem o busão. O homem para ajudar dá sinal e os dois vão embora, ainda rindo da noite.
Cena 17: Conclusão: João vai fazer uma camisa escrita: - Não estou ficando com a garota ao lado(no caso Natália) e não sou gay.
Ah, a noite não poderia ser péssima, os companheiros de boêmia sabem que qualquer coisa que inclua os dois seria divertido e algre. E agora eles vão rir dessa noite para sempre. Boa noite anão e cara do cabelo verde.
Para o João:
Um brinde e que venham muitas outras noites de amizade, de alegrias, de sorrisos, de caverna do dragão, já que estamos sempre tentando voltar para casa de madrugada, de arrependimentos e de tudo o que nos vier...hahaha
FIM
Resumo da noite: this is life is real?

Quem sou eu para você?


Há pouco tempo assisti a um filme chamado, "Quem é você para mim?" A câmera na mão me fazia sentir um pouco dentro do filme. Mas nem era preciso isso para eu me sentir naquela história. O filme girava em torno de dois personagens com problemas mentais e mostrava o que eles eram para os outros e o que eram um para o outro. É engraçado perceber o quanto os olhos de cada um distorce a figura de uma pessoa.
Parodiando isso tudo, criei minha própria história, só que ao inverso dessa, “Quem sou eu para você?”. Não preciso perguntar quem é você para mim, eu sei quem as pessoas são e o que elas significam para mim. Mas e eu? Onde fico nessa história? O que eu sou para você? Sinto que não sou ninguém e que basicamente inexisto. Mas não pode ser assim, no fundo do meu coração, que no momento em que escrevo esse texto bate disparado, eu sei que sou alguma coisa, seja ela boa ou ruim.
Você para mim? Você é alguém por quem tenho um carinho imenso. Alguém que eu quero cuidar e proteger e eu nem sei por quê. É uma afetividade muito grande, meus olhos enxergam muita doçura, sensibilidade e amor. Sim, o amor. Eu poderia simplesmente estar falando dele, mas não é o caso. Eu só sei que as vezes quero estar com você. Você não está e então pra mim é só o vazio, mas o vazio também é você. Ouço a sua voz, confesso que a acho linda e é a única coisa que eu posso ter sua nos dias de vazio. Você pra mim? É alguém especial e é alguém que me desperta interesse, curiosidade eu diria. Sei que tens defeitos, mas meus olhos penetraram nas qualidades e se é isso que vejo, é isso que és pra mim. Todo o resto não me importa porque certas qualidades superam os defeitos.
Esse não é o problema, o problema é “Quem sou eu para você?”. Não dá para saber o que os olhos das outras pessoas vêem. Mas não posso ser simplesmente uma página em branco, pois ninguém é uma página em branco para o outro. Pode ser que seus olhos não enxerguem as qualidades superando os defeitos ou pode ser só minha a tal curiosidade ou talvez ela exista ou existiu em algum lugar dentro de você. O “Quem sou eu para você?” faz toda a diferença. Eu queria poder ter elementos para construir essa história com personagens e cenários, mas eu só tenho interrogações.
Quem me dera estar bêbada a todo instante que estivesse perto de ti. Porque assim eu teria coragem de te dizer o que penso, de demonstrar esse interesse, que não é amor, mas é uma curiosidade fugaz que me mata por dentro. Mata? Continuo com a vontade de estar bêbada e de deixar todos os desejos, palavras e abraços saltarem do meu coração. Quem me dera você também estar bêbado para que eu também pudesse saber se existe algum desejo dentro de ti. Se é o medo que atrapalha ou se realmente é um não querer. Tímidos precisam estar bêbados? É timidez? Vou mesclando tudo e no fim me pergunto: - Quem sou para mim e para você? Quem somos nós para nos mesmos? Se eu não for ninguém, não vou insistir. Mas se eu for alguém as portas estão abertas para qualquer tentativa sem compromissos, afinal a vida é de incertezas. E carinho aqui tem bastante se precisar venha buscar. =)
- O que tem depois da ponte?
- Não faço idéia.
- Vai atravessar?
- Vou.
- Mas está chovendo.
- Se eu não for nessa, só na outra.

Castanho

Castanho como o dia, como a cor de seus olhos, como seus cabelos desajeitados, como o céu num fim de tarde. Ela andava pela vida, frágil, mas lutava por tudo o que conseguisse lutar, respirava a paixão por tudo, por cada passo que dava e cada sorriso tímido mostrava a grandeza da alegria que tanto carregava em seu ser. Falava pouco.
Mas tinha vontade de gritar para o mundo o quanto o amava, e ao inverso da sua estatura seus versos externavam a grandiosidade do seu ser, e como sonhava em um dia tudo ser tão belo e tão apaixonado quanto a sua alma,e em poder se repartir com alguem tanto amava.
Jovem, ainda ia a escola, tímida, ficava de canto a muito estudar, inteligente que só, poucos a notavam, mas notava muitos, um em especial.


E a paixão pelo todo
se tornou uma
desejando se unir


Num riso simpático daquele
explosão
o um quis se tornar o todo
e tudo agora o era


Mas esse todo se escondia pelos cantos
e não cantava
e não dizia
simplesmente, e pequenamente sorria


E o sorriso tornou-se oportunidade
e a beijou
tocou, tocou, apertou, puxou
fez se
e nada a fez mais feliz
e assim ela fez


O tempo passou
o tempo passou
e mais nada
nada
nada

Texto em que servi de inspiração escrito pelo meu amigo Marcos. O texto contém duas partes e é baseado em mim e em outra amiga dele, tem um pouco de cada uma nas duas partes. texto completo aqui http://relesdevaneios.blogspot.com/2009/11/castanho-escarlate.html

A morte não tem jeito

É, esse tapa na cara doeu mais e fez doer todos os outros. A vida vem me dando as costas e algumas vezes eu dei um tapa na bunda dela, mas dessa vez não dá. Só uma coisa num tem jeito nessa vida, a morte. Hoje foi um dia de pequenas alegrias, sorrisos, amigos, planos e expectativas de um show legal, mas a vida, ou talvez a morte, me roubou tudo isso em um segundo. Um tapa na cara de realidade, coisa que, por vezes, eu não sei lidar. Eu me engano para disfarçar a dor, mas a morte deixa marcar muito intensas, lembranças, saudades e nenhum sonho, nenhuma esperança, é só dor.
A sensação de impotência é gigantesca e a solidão também. Não sei, mas hoje eu acordei e vi o mundo de sonhos que eu estava me doeu um pouco, é hora de encarar a realidade e ter forças. Mas já não sei de onde tira-las eu já gastei demais. A solidão hoje é intensa demais, nessas horas a gente sente que precisa de alguém e não é alguém para dizer nada, porque não tem o que dizer. Os amigos preenchem um espaço do vazio, sem eles não faria sentido. Mas nessas horas precisamos de alguém que seja mais, de alguém intenso. A solidão doi muito, as vezes eu preciso ser sozinha, mas as vezes eu realmente não preciso ser sozinha.
Eu vou sentir sua falta aqui comigo, vou sentir saudade de ver você velhinha andando para todo lado. Vou sentir saudade dos seus cuidados comigo, com meu irmão, meu pai e minha mãe, vou sentir falta da preocupação quase de avó com a gente, sua alegria e inteligência. Amanhã será o dia do adeus final, mas as lembranças estarão sempre comigo. A tristeza hoje é muita, mas dizem que a vida é um equilibrio, então ela só é muita, porque a alegria foi do tamanho do mundo.
Agora é hora de ser forte, de tentar superar, já não sei como fazer isso. Já me perdi de mim, sinto-me sem chão, mas sei que isso vai passar. Doses de alegria carregam junto doses de tristezas. A realidade é cruel, a vida pode ser o que a gente quiser.
Esse texto não é agradavel para nenhum leitor, mas eu precisa de uma autoterapia agora. A solidão me obrigou a isso. Espero começar a segunda - feira com sonhos e esperaças. Não precisa de ninguém dar nenhum conselho quanto a esse texto. Não a nada a se fazer, o tempo vai se encarregar.

O estupor de Clarisse

ESTUPOR

esse súbito não te ter
esse estúpido querer
que me faz duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir

(Paulo Leminski, La Vien Close, pág 14)


Então Clarisse abriu os olhos, fechou o livro e saiu correndo. Seus passos pareciam arrastados para frente pelo vento. Ela não queria ir, porque só se sentia segura no abismo em que estava lendo Leminski. Por outro lado, no abismo ela não via as flores que nasciam no jardim e nem as crianças que brincavam alegres no parque. No meio de tanta gente na escola nova Clarisse sentia-se atoardoada. Ela tinha tomado uma decisão nova em sua vida e mudanças assustam. Decidiu esquecer um sofrimento, porém esse esquecer gerou mais um sofrimento e ai ela teve que colocar na balança o que dói mais: sofrer se iludindo ou sofrer tentando esquecer o sofrimento? Não encontrou nenhuma resposta nem o google lhe valeu. Saindo da aula e andando pela calçada ela se maltratava com tantas perguntas. Todo esse tormento só tinha uma explicação, Clarisse tinha se apaixonado por um garoto da escola nova e nesses dias o coração anda desalinhado com a razão e não se sabe qual dos dois seguir. A menina achava que ia esbarrar com ele em cada esquina. No meio do caminho para casa o tempo fechou e caiu uma forte chuva, ela ficou sob um pedaço de teto no cantinho da rua, abriu a mochila e tirou uma sombrinha ficou pensando se saia ou não. Mas vale a pena sair na chuva, abrir a sombrinha e não se molhar? Para que ir até ela e se esconder?Ah! Clarisse você tem que entender paixões são assim mesmo, a gente fica besta. São como as chuvas logo passam e depois vem outra, mas aprenda uma coisa menina quando a chuva vier saia e pule em todas as poças d'agua e corra contra a corrente, porque aquela chuva não vai voltar. O tempo está fechado faz tempo e Clarisse tá em dúvida se espera a chuva vir em um lugar coberto, se sai andando com a sombrinha fechado sem medo de chover ou se pede a uns indios que façam a dança da chuva. Ela foi para casa o tempo continuou querendo chover, mas não choveu e agora ela vai dormir colocando a sombrinha em sua bolsa para amanhã.

Amor?

Amor

s.m. Afeição viva por alguém ou por alguma coisa.

Aimer


ai.mer
vt amar, gostar, prezar. aimer mieux preferir.

Há pouco tempo levantei a questão se o amor seria francês e se só os franceses sabem amar. Ainda não tenho resposta e nem terei, mas como diria o Hélio, não importa cor, raça, profissão ou altura, todos somos perseguidos por esse sentimento, desde a infância. Deixo claro aqui que falo de amor despertado pela paixão, desejo e não amizade, familia e etc. Infelizmente não existe nenhum manual do amor e também nenhum teste para saber quem você vai amar.

simulação: Teste do amor
Marque sua cor preferida
( ) bege
( ) verde
( ) azul
( X) Branco

Muito neutro pra mim, próximo.

Existem apenas as reações de cada um em relação a ele. O Hélio acha que o amor não existe e vai passar um bom tempo tentando me convencer disso. Tem a Sandim que faz do amor uma brincadeira e vai renovando ele o tempo todo.O Marcelo acha o amor foda, ele acabou de me dizer isso. O João arruma a maior uma confusão com o amor. Eu, Débora e Marcos achamos que o amor existe e ainda acreditamos em um "para sempre." Mas eu nem sei se já amei na vida, porque não dá para saber se um sentimento é amor, pode ser apenas paixão, desejo fisico, uma amizade forte ou até mesmo curiosidade. É, as vezes a curiosidade é tão grande que você acha que tá apaixonado ou amando. Vivo dizendo que acredito no amor, mas não faço idéia se já o senti, nunca escrevi uma carta de amor ridicula, mas já fui ridicula a ponto de escrever um texto para alguém só esqueci de avisar que era para ele. O engraçado é que me apaixono em um segundo, me apaixono por pessoas que vi uma vez na vida e vivo 5 minutos de encantamento, me apaixono por pessoas que convivo, me apaixono por quem não sei o nome idade e nem endereço e pelo musico que só existe para mim no palco. Acho que a sensibilidade me fez ir apaixonando o tempo todo e rio dessas pequenas paixões, é gostoso. Mas e o amor onde entra nessa história? Nos filmes o amor sempre dá certo e na vida real, será que existe mesmo amor? Como é quando se ama? O dicionário pode explicar isso? Existe um especialialista em amor para dizer se você tá amando ou não? Para ser amor tem que ser para sempre? Alguém já viu um manual do amor? Seria o amor uma flor roxa? E poque raios roxa?

Só tenho uma certeza: são cinco letras muito mais secretas do que o próprio segredo. Se um dia eu amar alguém, volto aqui para contar as reações.

Dois?

Foi uma descoberta sensacional, dessas coisas que parecem te fazer voltar a sonhar. Não consigo parar de ouvir de tão bonito e delicado. Agradeço ao João.


Dois
Composição: Tiê e Thiago Pethit

Como dois estranhos,
cada um na sua estrada,
nos deparamos, numa esquina, num lugar comum.
E aí?
Quais são seus planos?
Eu até que tenho vários.
Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar.
E mesmo assim, eu queria te perguntar,
se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar,
se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?

E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
e você vai me ensinar as suas verdades
e se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu tenho aqui comigo
alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.



Um instantizinho, por favor.


Cada fração de segundo da nossa vida é uma coisa nova e tem uma significação diferente. Se der para fragmentar tudo eu ia queria contar cada instantizinho. Cada letra que estou digitando é um pedaçinho de uma história de toda uma vida. Cada passo, olhar, gesto ou grunido escreve uma linha nova. A gente só percebe que cada pedaçinho é uma frase nova quando acontece algo grande demais, como um acidente ou algo assim. E as pessoas vão dizer: -a um minuto ele estava aqui e agora morreu e não está mais. Mas será que alguém percebe quando um ventinho muda um dos fios de seus cabelos de lugar? Será que alguém ainda vê os detalhes da vida?
Quando eu era criança eu gostava de ver as formigas andando em fila dupla e as vezes elas se encontravam e eu achava que elas paravam para se cumprimentar uma a uma, carregando suas comidas. Ficava horas as observando. Sempre gostei de olhar os pingos d'agua tocarem o chão. Ficava vendo o splash de cada um e sempre achava que uns levantavam mais água que os outros. A água sempre me fascinou, quando eu era criança não tinha diversão melhor correr na enxurrada no sentido contrário. Cresci, ou talvez não, e continuei correndo contra a corrente. Ainda olho para a enxorrada e penso em correr nela, mas não sei se ainda tenho a mesma alegria e força para ir contra a água, acho que agora vou sendo levada. As vezes é meio cômodo.
Hoje já não tenho mais ousadia para pular nas poças de água e agora entendo o que minha mãe dizia sobre a enxurrada ser suja e perigosa. Perdi a ousadia da infância e as vezes tenho medo de que a enxurrada do tempo tenha levado com ele a minha capacidade de ver cada instantizinho, cada segundinho, cada formiguinha da minha vida.
Ao mesmo tempo eu fico catando cada pedaçinho e vou colando com cola bastão para ficar fácil de descolar e colar depois cada hora de um jeito diferente. Eu? Qual dos meus eus? cada instantizinhos somos uma pessoa diferente. Cada formiguinha que passa nossa mente se desenvolve e se muda um pouquinho, num intante a formiguinha estava aqui e depois ela já está lá. E o lugar por onde ela passou já não é mais o mesmo e não somos mais os mesmos. Para cada pessoa somos alguém. Para algumas pessoas eu sou trêmula e cada instantizinho me parece contado, vejo cada olhar, sinto cada vento, cada gesto. Nesses pequenos instantizinhos vejo cada pedaçinho da minha vida.
Não dá para fugir da gente e nem dá para fugir do que os instantizinhos querem nos proporcionar. A vida vai ser o que ela tiver que ser, mas com nossa experiência podemos ir construindo os instantizinhos. Alguns eu gostaria segurar um pouquinho, mas eles vão junto com a enxurrada as vezes tenho a imprensão de que a a água tá correndo e que eu tô parada no mesmo lugar. Ela vai levando tudo e eu não seguro nada. As vezes esses instantizinhos são tão importantes, são pequenos olhares, um toque e que eu acho que ninguém mais tá se importando. Eu plantei um brotinho de uma florzinha e vou ficar daqui olhando ele crescer cada instantizinho e não vou dormir e só vou comer olhando para ele, ir crescendo e crescendo. Até ela crescer desabrochar e eu vou ir regando para ver os pingos de água grudando nela e vou ver cada petala cair e ir embora com o vento e cada nova que nascer. Ontem o João me pergunto o que eu faço para voltar a sonhar e eu respondi: - "Assisto Amelie Poulain." As vezes penso que só os franceses sabem ver os detalhizinhos da vida, só eles enxergam cada instantizinho separadamente. Seria o amor francês? Será que só os franceses sabem amar? Então, você tem um instante, por favor?


"Nos meus sonhos eu fujo Faço as malas e sumo Vou andando devagar pra você me alcançar ..."
Thiago Pethit



Afinidades

Esse é o texto mais diferente do blog, ele não é surreal, não se basea na imaginação e vem da realidade, tenho sonhado pouco. Esse é real.

Em uma conversa de buteco:

E chegamos a conclusão que cada vez mais os seres humanos caminham para uma massificação e com isso estamos perdendo algumas coisas pelos caminhos. Nunca seremos totalmente iguais, mas estamos cada vez mais impondo e seguindo regras. Por estarmos nos acostumando com as regras estamos cada vez mais julgando e criticando o outro pelo o que ele faz ou expõe. Estamos cada vez mais vendo o que existe por fora e cada vez menos olhando o que está por dentro.
Será que em conversas casuais as pessoas ainda conseguem perceber os sentimentos que pairam no ar e que não são ditos? Será que todos estão olhando assim porque ele bebe, fuma e usa drogas? Isso importa tanto quanto o que ele carrega dentro do seu coração? Para mim não. Mas isso é regra social e julgamos os nossos próprios erros, achamos que não somos suficientemente bons para alguém porque infligimos uma regra social.
A vida sempre me jogou de paraquedas em universos desconhecidos sempre cai precoce em alguns mundos e de repente tava lá tendo que me virar, aprendendo. Alias esse verbo aprender vive me seguindo. Não consigo mais ver só o lado de fora, quando você tá sozinho e perdido aprende a fazer um raio - x das pessoas e vê que não devemos olhar se elas seguem ou não as regras sociais. Porque muitas vezes se elas exalam erros por fora compensam com um ótimo coração por dentro e é isso que importa, mesmo.
Tendemos sempre a procurar uma identificação no outro, é humano. Nos unimos por afinidades, é assim com todas as relações, amizade, amor, paixão, trabalho e etc. Só estamos com alguém porque algo no nosso cérebro se liga ao cérebro do outro. Mas muitas vezes nos pautamos por afinidades externas, o que vestimos e principalmente quais regras sociais as pessoas seguem. Mesmo quando conhecemos alguém tendemos a nos afastar por acharmos que não seguimos alguma regra que a pessoa segue, mas e o que tá lá dentro? E as coisas do coração que se ligam? Além de mim, alguém está preocupado com isso?

Adaptação



"Eu tava pensando, conhecer outrem é como entrar num quarto escuro, nunca se sabe o que tem lá. E você só descobre quando já esbarrou, derrubou ou caiu devido a algo." Marcos Medeiros.

Sempre tive medo do escuro e as vezes saio correndo para a claridade, onde eu posso enxergar tudo. As vezes me pego tentando andar no escuro, quase sempre esbarrando em tudo, derrubando as coisas e na maioria das vezes tropeçando em algo que eu nunca imaginei que estivesse lá. Isso sempre me acarreta umas feridas. É assim até mesmo com as pessoas que tenho costume, já me adaptei a andar naquela escuridão, mas as vezes esbarro, derrubo ou tropeço em algo que nunca imaginei que estivesse lá. Nessas horas sinto vontade de voltar para a luz, curar as feridas. A claridade só existe em minha solidão. Nunca vou acender a luz do quarto escuro de ninguém, mas vou sempre ter que me adaptar ao escuro. Tenho que parar de fugir para a claridade, senão viverei para sempre nela. É duro, mas é real. Vou aprendendo a conviver com os esbarrões, arranhões, tropeços, quedas, sustos e tudo que esse escuro puder me acarretar. Só preciso que me deixem entrar no quarto escuro.

O reverso, in verso.

Coração aflito, calcanhar ardido.
Amor contido, consiso, perdido, dito.
Labirinto sucinto, sinto. Mas labirinto.

Chuva seca, sol gelado.
Dia nublado.
Noite de luzes, cruzes.

Caminhei tanto, aos prantos.
Só me restou os encantos, em cantos.
E os versos? reversos, in versos, diversos.

Xadrez


O que? Amor? hã? Eu estava há alguns passos, eu sempre estou a alguns passos. Vou lá, assim que eu soltar essa âncora que me prende no chão. Eu mando minhas pernas caminharem, mas elas insistem em me desobedecer, fico lá brincando de estátua. Até que o destino me obriga a caminhar e pareço estar sendo empurrada por alguém. De repente, o mundo me parece... xadrez. Xadrez? É. Estranhamente estranho. E depois pareço querer sumir. Fugir? É, só fugir. Quem? Eu? Uai, fui só ali, é que esqueci de voltar. Vai para onde agora? Vou dançar quadrilha, de boa.

Quadrilha.

Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Sempre gostei desse poeminha. Sempre gostei de quadrilha, literalmente. =]


Café da esquina com pudim



- Oi
- Oi
- Te trouxe um pudim.
- Obrigada. É de que?
- Caramelo.
- Tem gosto de infância.
- Você quer um café?
- Café não combina com pudim.
- O que combina com pudim então?
- Suspiros.
- Suspiros?
- É.
- Quando o pudim acabar você vai para onde?
- Para casa. E você vai para onde?
- Não estou comendo pudim.
- Você pode me trazer suspiros no próximo encontro?
- Talvez, faz tempo que não vejo suspiros, então não sei se vou encontra-los.
- Tudo bem.
- Pode ser morango?
- Tem que ser suspiros, faça um esforço.
- E você vai comer suspiros com o que?
- Com seu chocolate meio amargo.
- A chuva passou, vou embora.
- Nos encontramos denovo na próxima chuva?
- Sim.
- Adeus.
- Adeus.

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Porque estamos nos escondendo?

(É que se eu contar para alguém e isso acabar eu vou estar perdendo alguma coisa, mas se eu não contar, posso fingir que nada aconteceu e continuar minha vida normalmente. Mais uma vez Clarisse tinha se apaixonado e no começo tudo era ótimo, até o dia em que a menina percebia que aquela relação não poderia ser levada adiante e ali ela terminava tudo. Ela se apaixona e desapaixona com a mesma intensidade. De repente ela não quer mais e simplesmente some. Nas noites sozinhas Clarisse se sente completamente estranha, acha que não é como todas as pessoas e que nunca vai conseguir gostar de alguém de verdade. A moça sabe que para agir com o coração deve fazer a coisa errada e ela o faz nos momentos de paixão, mas depois volta a agir com a razão. Ela pode parecer um pouco fria, porém contradizendo isso tudo ela é doce, meiga, sensivel, só não é tão boba quanto parece. Talvez por isso ela se sinta tão estranha e diferente. Talvez por isso ela esconda seus romances, quando os tem. Ela decidiu voltar aos velhos hábitos de esconder suas paixões assim esconde dela mesma seu estranhismo. Contar as pessoas exige explicações, elas querem soluções, respostas e o pior de tudo querem entender. E Clarisse não está muito afim de explicar).

É porque sou tímida.

Primavera



Então chegou a primavera. Não sei ao certo se os jardins estão prontos para recebê-la,também não sei bem se os animais estão se reproduzindo. O sol parece ter tirado umas férias, foi aproveitar a primavera em outro lugar. As nuvens tem andado meio tristes e suas lágrimas andam fazendo alguns estragos aqui pelo chão. Eu li que o mês de setembro é mês de desastres, pode ter acontecido algum desentendimento entre as nuvens e o sol e talvez por isso ele tenha ido embora , refrescar as idéias, e as nuvens ficaram chorando. A noite a lua deve consola-las, talvez elas fiquem mais sensíveis e por isso choram mais.
Assistindo o tempo pela janela fico vendo a primavera meio perdida nisso tudo. Parece que ela se perdeu nos vagões e desceu na estação errada. Eu estava apenas sentada vendo as cenas mal montadas. É que ao mesmo tempo que não quero ver as nuvens tristes, no fundo eu bem que gosto de ver as lágriamas delas cairem. Mas tô pensando em acordar mais cedo amanhã, vou buscar umas madeira e uns pregos, construir uma escada bem grande e ir lá em cima conversar com as nuvens e com a lua para saber o que está acontecendo. Vou tentar consertar o caos para a primavera se reencontrar. Mas amanhã, ou talvez um outro dia.

Acabou que as cores dela me inspirou a escrever sobre primavera também.

Ilustração: Mariana Mauro

O dia em que Clarisse encontrou Clarice

Clarisse sempre ouviu falar de Clarice, desde a infância. Mas nunca se interessou por ela. De uma coisa a menina não podia fugir: o nome igual o de Clarice com a diferença apenas dos dois s. Clarisse, na sua juventude, ouvia sempre alguem dizer: "- é Clarisse igual a Clarice Lispector?" Não, não era isso, ela só queria ter seu nome em paz. Contudo sua birra pela autora ia se transformando em uma curiosidade de conhecê-la. Certo dia, a jovem foi a biblioteca de companhia para uma amiga. Chegando lá as duas encontram Clarice e Luis, a amiga da menina já conhecia Luis e foi logo falar com ele. Nesse momento, Clarisse ficou sozinha com Clarice. As duas começaram a conversar. A primeira coisa que a autora lhe disse foi: "Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida". Como não se encantar por uma coisa dessas? Os olhos de Clarisse brilharam ela ficou atordoada e fascinada com aquela frase. A menina disse sim a aquela amizade. Quis conversar e conhecer cada vez mais Clarice. As duas sentaram-se para ver A Hora da Estrela. Clarisse já estava encantada com a simplicidade de sua xará que foi logo lhe dizendo: "Que ninguém se engane, só consegui a simplicidade através de muito trabalho." Clarisse passou noites e noites batendo papo com Clarice e agora ela sente-se como se tivesse conhecido metade de uma parte da autora. A menina voltou a sonhar, voltou a ter os velhos encantamentos, agora dorme tranquila e aliviada. Clarisse espera conhecer mais de Clarice e agora sonha em ser ela "quando crescer". Tão doce, sonhadora e lúcida quanto.

Vítima da Imaginação

"Dicionário dos Sonhos.

impotência
Na vida: problemas. No amor: rejeição.

Sonhar que sofre de impotência significa enorme felicidade nos seus amores.

Você está sendo vítima de sua própria imaginação."

A menina dos balões anda se desencontrando da sua própria vida. As coisas parecem estar as avessas. Os balões parecem puxa-la para baixo ao invés de para cima. Ela anda pescando algumas coisas do mundo. Esses dias assistiu um filme em que o personagem dizia uma coisa, mas sua mente dizia outra. Era uma vida dupla , um "Barulho na cabeça". De relance, viu na TV que se você vai agir com o coração deve fazer a coisa errada. Leu em um primeiro paragráfo de um livro da Clarice Lispector que dizia que tudo no mundo começou com um sim. Um sim começaria muita coisa para ela.
Nesses dias a menina dos balões anda com vários barulhos na cabeça e tem se sentido muito impotente diante de diversas situações. Por falar nisso, ela encontrou o dicionário dos sonhos e ele lhe alegou uma coisa importante: ela está sendo vítima de sua própria imaginação. O dicionário dos sonhos se encaixou direitinho, mas ela vai fecha-lo e abrir o dicionário da realidade.
A menina espera agora novos ventos que a joguem para cima, que faça os balões subirem, mesmo com o medo que tem de altura. Ela aceita o desafio para poder tocar as estrelas.

Não tem título mesmo, nunca tem.

Aqueles cachinhos não combinavam muito com o terno. Eu já o tinha visto algumas vezes. Um oi aqui, um tchau acolá, mas nunca haviamos conversado. De repente, ele senta na mesa se vira para mim e a primeira coisa que diz é: - "Eu li seu blog". Nessa hora todos da mesa se calam e olham para mim. Já completamente desconcertada pergunto espantada: - Meu blog? E ele responde: "- Sim, seu blog, que por sinal eu gostei muito." Meio sem saber o que dizer, agradeçi, sem jeito.
A primeira imprensão que tive dele não foi lá essas coisas. No dia que nós conhecemos o alcool tinha roubado ele. E eu só enxerguei um moço frio, louco e que não liga pra mais nada além do seu umbigo. Como sempre minhas primeiras imprensões estavam erradas. Quando ele falou do blog, foi impossivel não reaver meus conceitos. Todos que estavam na mesa eram meus amigos, mas ninguém sequer sabia da existência do meu blog.
Quando começamos a conversar eu fui vendo um outro moço, descobri que a tal loucura era mais intensidade e que provavelmente ele olhasse muito mais o mundo ao seu redor do que eu imaginava. Seus olhos saem fotografando detalhes da vida, pequenas simplicidades. As vezes suas percepções me assustam, me encantam e até me fazem rir. Como no dia em que ele disse que apesar de ser timida eu tenho 444 amigos no orkut.
Do mesmo jeito que ele seguia meu blog eu comecei a seguir o dele e ele começou a postar mais. Ele diz que meu blog foi um incentivo para o dele e eu me senti imensamente feliz. Ele diz gostar do que eu escrevo, pois eu o aviso que gosto do que você escreve. É engraçado ver como alguém pode ser tão igual e tão diferente de você ao mesmo tempo. Somos dois contadores de história. Ele um pouco aflito e eu calma demais. Ele sai querendo viver tudo e eu por vezes não vivo nada. Por mim teriamos 12 horas de sono, mas ele acha que 8 é suficiente.
Agora ele vai contar carneirinhos até o sol nascer. E eu deixo aqui esse texto em retribuição ao texto de Lorenzo, um leitor surpresa assíduo. Ele não tem título porque sempre me provoca risos a falta de títulos nos posts dele. Tá ai, espero que você goste do jeito que contei esssa história. Que daqui a 10 anos eu e você escrevamos novos posts relembrando esses. Que eu possa rir e me encantar muito com suas hitórias. Dedicado a um amigo.

Clarisse e o cinema


Clarisse foi sozinha ao cinema. Essa não era sua vontade, mas a falta de companhia fez com que ela tomasse essa decisão. Não que ela se importe, pois sempre foi sozinha ao cinema. Esse é o único lugar que ela se sente bem sem companhia. Para variar, ela saiu de casa atrasada e pegou o ônibus. Sempre que utiliza o ônibus ela coloca o fone de ouvido, porque não gosta de ouvir conversas alheias. Mas nesse dia ela quis fazer parte daquele ambiente, talvez para recompensar o tempo que ficaria sozinha. Clarisse sentou nos últimos bancos do veículo, ela sentou-se bem no meio. Do seu lado direito um rapaz tomava cerveja e do lado esquerdo uma moça equilibrava um caneca na mão, no banco da frente uma senhora e duas crianças comiam chocolates. Clarisse lembrou-se do dia anterior que ela também pegou o ônibus e foi sem o fone. Ela ouviu uma moça dizer: "Já está tarde motorista não é hora para gentileza." Naquele momento a menina sentiu um incomôdo gigantesco. Sentiu vontade de virar para trás e avisar a moça que sempre é hora para gentiliza. Ta ai, tem três coisas que Clarisse muito preza: gentileza, educação e respeito.
A menina chegou ao cinema e pediu seu bilhete, a moça da bilheteria perguntou: "- Tem mais alguém com você?" Nessa hora Clarisse sentiu-se um pouco mal, sensação estranha. Era estranho ser sozinha ali. Na fila, ela ia vendo os solitários encontrarem seus pares. A sala que ela assistiria o filme estava repleta de casais. Mas bastou começar o filme para que a menina esquecesse o universo ao seu redor. As imagens na telona deixaram Clarisse atordoada, os personagens conversavam consigo mesmo e tinham relações amorosas turbulentas. Ao mesmo tempo a menina sorriu diversas vezes se vendo e achando cômicas aquelas situações. Ao sair do cinema encontrou Pedro e Marta, discutiram os filmes e jogaram conversa fora. Clarisse ficou feliz, talvez não tivesse outra oportunidade de se encontrar com essas pessoas e de bater um bom papo se tivesse planejado isso. Essa foi uma das raras vezes que sua solidão em publico a deixou feliz.

eu quase fui ao Festival Garimpo

são dias em que você não arruma companhia para sair. parece chover, não ter ônibus e o mundo todo está contra você. são em dias assim que você se sente o ser mais sozinho do mundo, parece que lhe falta amigos. não é a primeira vez que isso acontece e não será a última. são dias em que você se arruma o dia inteiro na expectativa de sair e acaba sozinha em casa, de frente para o pc. são os dias mais frustrantes. são dias em que você sente raiva de toda a violência do mundo e que por causa dela, você desanima de sair sozinha. são dias em que você questiona porque as ruas são tão perigosas. nesses dias tudo se torna questionável, até sua pobreza por não ter um carro. são dias como hoje, são dias em que eu quase fui ao Garimpo. quase não é nda, eu quase tive companhia, eu quase tive um dia legal. mas eu fiquei no quase, eu tenho ficado no quase. a única certeza que tem me restado é a solidão. e desses quases eu não quero mais nada. não quero mais que quase aconteça. essa tem sido minha palavra dos últimos dias...quase. agora só resta esperar por dias melhores, amigos novos e mais animados ou que os velhos se animem também. são dias em que a falta de vontade toma conta e você escreve um texto sobre e você e ainda não tem ânimo de colocar letras maiusculas. são dias assim, são dias como hoje.

Eu - rvilha


Eu queria morar dentro de uma ervilha. Seria tudo tão verde e pequeno. Tão simples. Sempre gostei das ervilhas, sempre as achei simpáticas, delicadas e pequenas. Eu nunca soube com que elas combinavam e sempre as comi junto com tudo e o pior é que nunca senti gosto de nada. Mas não é pelo gosto ou pela beleza exterior, até porque elas são redondas e verdes. Eu gosto mesmo e de sua maciez interna, sua leveza. Não acho que muitas pessoas reparem as pobres ervilhas, eu sempre acho que elas passam desapercebidas no supermercado.
Se eu morasse dentro de uma delas também passaria desapercebida. Eu não teria nada e nem ninguém, só eu mesma. Isso relembraria os nove meses que passei no útero da minha mãe, a solidão e a posição de feto que eu ficaria. Lá vou eu para mais uma mudança, só que desta vez sem cerquinha branca e sem mochila nas costas.

Adeus Amigos leitores, vou-me embora morar uns dias na ervilha joaquina.


O dia que as árvores dançaram para mim.

"será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente?" Rita Apoena.

Hoje, voltei assistindo, pela janela do ônibus, uma apresentação das árvores. Elas dançavam, ainda que não houvesse música. O asfalto molhado pela chuva e uma meia luz amarelada do poste compunham o cenário(Luz, que um dia foi branca, se é que alguém se lembra). Foi uma avenida inteira assim. Em fila indiana eu ia vendo a sombra das árvores dançarem no chão reluzente. As maiores, eu quase podia tocar, as menores, eu via melhor os detalhes. Hoje, meu filme me pareceu meio preto e branco. Mas confesso que as árvores estavam lindas e eu torci para que amanhã eles não ganhassem suas cores. Saindo do filme e caminhando para casa eu vi minha sombra passar primeiro pelo portão, corri afobada e até tentei dar a mão para ela, queria que entrassemos juntas, mas ela não quis papo. Eu sai e fui desabafar com a árvore me camuflei na sombra dela, para que minha própria sombra não me encontrasse, e contei para ela a minha vontade de me unir a minha sombra. A árvore não me disse nada, apenas ficou lá me olhando. Ela já tem seus problemas e não devia estar afim de ouvir os meus. Para mudar de assunto contei para ela sobre a apresentação de suas colegas mais cedo e disse que tinha certeza que nenhum jornal publicaria essa notícia. "Ontem as árvores da avenida ... dançaram para o público às 23 horas, a entrada foi franca..." A árvore concordou com a cabeça e eu entrei em casa sem reparar se minha sombra passou na minha frente.



Roubando Tulipas



Um losango ou um quadrado? Clarisse ficou esperando passar o filme da sua vida em preto e branco na sua cabeça, como ela via nos filmes, mas não aconteceu. Talvez porque ela estivesse ocupada demais com a imagem do carro que muito lhe parecia um losango ao invés de um quadrado. Estava tudo meio desfocado, ela se sentia bebada, como se tivesse tomado 5 doses de tekila, mas ela não tinha bebido nada. De repente, sentiu algumas gotas de sangue escorrerem sob seu rosto e cairem na grama. A menina sorriu ao ver a cena, sempre gostou da combinação verde-vermelho. Foi olhando para a grama que Clarisse percebeu a situação mais inusitada, ela estava de cabeça para baixo. Por instantes, a menina pensou em como seria se tudo fosse de cabeça para baixo. Concluiu que se vivessemos "ao contrário" pisariamos nas estrelas e na lua e sonhariamos em roubar em uma flor do chão. Num breve momento de lucidez, Clarisse começou a olhar a situação como um todo e não só as partes que ela tinha visto. Foi então que percebeu que estava completamente presa e a única coisa livre era os seus cabelos. No meio do nada Clarisse se sentiu mais sozinha do que nunca. Sabia que não adiantava gritar e que nada resolveria. Dependurada do lado de fora do carro e olhando pelo vidro da frente continuou encucada sem saber se seu carro tinha um formato quadrado ou losangular. Começou a forçar sua mente para ver o filme de sua vida, ficou esperando ver a luz no fim do tunel, porém só lhe restou a trilha sonora, uma sirine. Lhe pareceu que alguém ia aumentando o volume lentamente. E suas forças iam em sentido contrário, acabando rapidamente, Clarisse foi fechando os olhos e se entregando aos poucos. No auge de seu delirio ela estava pisando nas estrelas e na lua, ao mesmo tempo se perguntava olhando para o chão: "Como eu vou fazer para roubar aquelas tulipas?"

Manchete do dia: "Jovem sofre acidente na BR 381 e passa bem."

Ps: Não eu não queria mesmo matá-la. rsrs



Tudo que eu não fiz.

É um quebra cabeça com algumas peças no lugar errado e algumas eu perdi. Por mais que eu tente montar não vai formar imagem alguma. Faltam algumas peças, muitas. Sinto essa falta, sinto falta de tudo o que não fiz, de tudo que não tenho feito e de tudo o que não vou fazer. Falta da minha mãe, de amor e de extravassar toda essa minha intensidade em algo que seja recíproco.

Em mais uma conversa-viagem com a Jéssica ela me disse:
"o pior é que sua mente é muito solta e sua imaginação mto potente..
aí vc fica imaginando algo que as vezes nem é real...
q num é verdade...
que só aconteceria no fantástico mundo de natália...
por isso que acho que vc se parece comigo!
o amor é complexo - a natália é complexa - a história é complexa - entender tudo isso é complexo!!
Não há explicações e nem soluções."

Ela tem razão, não há. E agora? Coloco uma música deprê ou alegre? Alegre.

Clarisse e o roubo da estrela


Clarisse cismou que queria tocar a lua, nem que fosse por alguns instantes. Todos tentaram adverti-la que aquilo era impossível, mas a menina cismou com a ideia. E como se não bastasse ela queria também roubar uma estrela, mas só uma. Sentada em uma pedra, a menina ficou pensando quantos degraus seriam necessários para chegar até o céu. Logo, lembrou-se do seu medo de altura suas pernas começaram a tremer e suas mãos minaram água. Clarisse já não sabia o que fazer, e seguiu para casa chateada. No caminho se olhou em um espelho. Viu refletida ali uma menina triste, desconsolada e angustiada. De repente, teve uma ideia. Correu até a sua casa e pegou um balde, era tudo o que ela precisava. Passos rápidos, tropeçando em tudo, a menina chegou até a beira da lagoa e viu a lua na água, quase não acreditou, seu sonho estava se realizando. Clarisse a tocou e até a bagunçou um pouco. Sorridente como nunca. Não satisfeita, ela pegou o balde e catou a estrela da água, na mesma hora saiu correndo e gritando que havia pegando uma estrela, acordou toda a vizinhança. Os vizinhos ficaram incrédulos com aquela situação, mesmo assim, todos pegaram um balde e sairam correndo para a lagoa. Chegando lá , foi uma briga para tocar a lua e uma robalheira de estrelas. Clarisse foi idolatrada no vilarejo e já faz 50 anos que essa história é contada de geração em geração.

Clarisse e o Dente de Leão.


Clarisse saiu atrasada de casa e seguiu para mais um dia de trabalho. No caminho seus pés se dividiam entre a urbanização e a natureza. Na calçada, metade cimentada e metade não, algo inusitado chamou a atenção da menina. Era uma dessas florzinhas brancas que na infância Clarisse gostava de soprar e ver voar seus "algoodõezinhos", ainda gosta. Ela sabia que o nome da flor era Dente de Leão, mas preferiu chama-la de sobrevivente, pois era a única em meio a um monte de grama. Clarisse ficou impressionada com a cena. Seu olhar atento se intrigava com aquela situação, pois a flor era praticamente uma intrusa em meio aquele verde. Com um espirito ainda infantil a menina pensa em se aproximar e soprar a florzinha. Com uma insegurança estranha chega bem pertinho do Dente de Leão e um forte vento espalha os "algoodõezinhos" brancos por toda parte. Clarisse fica assustada e encantada com aquele acontecimento. De repente, todo aquele verde se contaminou com o branco da flor que mesmo sozinha mostrou a grama que podia deixar um pouco de sua individualidade ali. Uma cena tão simples fez com que a garota pensasse em toda a complexidade de sua vida. Logo, lembrou-se de uma ex-professora, a menina sempre admirou essa profissão, e pensou nela como a florzinha que se mostrava sempre sozinha tentando deixar um pouco de si em todo verde. Essa foi uma das coisas mais preciosas que Clarisse aprendeu com ela, a menina, que se sentia uma intrusa no mundo, as vezes não entendia porque tudo era tão verde e ela tinha uma pontinha branca. Porém aprendeu que com um pouco de vento podia deixar um pouco de si na grama. A grama jamais seria um Dente de leão, mas poderia sentir um pouco daqueles sensíveis e macios "algoodõezinhos." Clarisse pensou naquilo o dia todo e antes de dormir, desligou seu abajour e ficou pensando em um jeito de plantar flores em meio a grama ou pelo menos de deixar algumas pétolas colorirem aquele verde dominante.


A cidade do amor


-Moço eu vou levar esse relógio.
-Tá ok, são dois abraços e três beijos você pode pagar para aquelas crianças ali.
-Obrigada!! Até mais.

Na cidade do amor dinheiro não existe. Nela você pode comprar o que quiser e deve pagar em afetividades. Quanto mais caro for o que você deseja mais amor deve dar. Quem mora por lá, não conhece algumas palavras como cobiça, ganância, briga e etc. As palavras ricos e pobres também não existem e todos vivem em uma singela harmonia. Lá, não é estranho abraçar e beijar um desconhecido, na verdade isso é o mais comum. Não existe profissão fixa, um dia você é entregador de pizza e no outro é diretor de uma grande empresa. Todos são um pouco palhaços e um pouco coveiros, um pouco músicos e um pouco administradores estressados. Não pense que lá não existe mendigo, porque existe sim, essa é uma das profisssões. Eles vagam pelas ruas medigando carinho e até conseguem bastante. A profissão mais almejada é a de trocador. O motivo para tal fama? Dizem que é porque ele ganha aproxidamente 2000 abraços por dia em pagamento da passagem. Na cidade do amor não existe tédio, pois você não sabe a profissão que irá exercer no próximo dia e será tudo novo. Os moradores também trocam de casas todos os dias e por isso acabam conhecendo cada cantinho da cidade, que não é muito grande. Na cidade do amor é proibido proibir. Os casais são um pouco mais apaixonados que os das cidades normais. Dizem que essa pequena cidade está mais perto do céu, poque nela há mais estrelas que nas cidades normais. A "noitinha" vários casais sentam na beira da lagoa e ficam olhando as estrelas e a lua refletidas na água. Já fiz minhas malas e pretendo me mudar semana que vem para a cidade do amor, se você sentir saudades pode me mandar uma correspodência, eu prometo responder.

Timidez


Não era mais um fim de semana solitário, pelo contrário, eu estava rodeada de amigos. A maioria deles eram casais. Eu estava um pouco perdida ali. Como sempre calada e no meu canto. Olho para um lado e para o outro, penso em puxar assunto com alguém. Falo com quem eu não conheço? Procuro fazer novas amizades? Não, é melhor não. Tá legal, então eu vou puxar assunto com alguém que eu conheço mesmo. Mas o que eu vou dizer? Já sei, vou perguntar por alguém que não está aqui. Pergunto, só que esse é o tipo do assunto que acaba rápido. Rapidamente contabilizo 7 casais e eu lá fazendo companhia para o saleiro. Mexo as pernas para um lado para o outro, bato os dedos na mesa. Não sei o que fazer, não sei se quero dizer algo ou se tenho algo a dizer. As pessoas puxam assuntos comigo, mas eles não rendem muito. São apenas coisas casuais, talvez para eu não ficar tão deslocada. A noite vai acabar e eu vou ficar ali, protagonizando sorrisos e ouvindo de fundo as conversas dos casais, brigas, troca de carinhos e tudo mais. Agora vou embora, um abraço e um beijo em todos e sigo silenciosamente pensando: - Que será que as pessoas pensam de mim? Eu penso que não é fácil ser tímida e introvertida. Mais uma vez tive medo de invadir o espaço do outro.

Suprir


Acho que essa é a palavra que mais permeia nossa vida. De fato, estamos sempre suprindo alguma coisa com outras coisas. Se alguma coisa nos deixa triste procuramos algo que nos deixe feliz para esconder a tal tristeza. Se alguma coisa dá errado procuramos também algo que nos deixe feliz para dizermos a nosso interior que outras coisas deram certo. Muitas vezes me pego disfarçando a dor com uma música que gosto no último volume. Outras vezes produzo algo, como os textos para o blog, para disfarçar alguma decepção. A solidão sim é a coisa mais difícil de ser suprida, falta, saudade, quase nada consegue suprir esses sentimentos, msn, orkut, telefone, amigos, algumas coisas disfarçam esses sentimentos, mas nem sempre suprem por completo. Existem coisas, como abraços, beijos, belas palavras, carinho e muito mais que é difícil de suprir. Andei suprindo um monte de coisas em minha vida e agora percebo que suprimi a minha vida. Ando agitada, euforica e tensa com o nada. Esse vazio que tanto me incomoda que tanto olho com enorme curiosidade. Apesar da vontade de preenchê-lo, confesso que também me agrada o fato dele estar ali e por isso procuro os metódos mais complexos para preenchê-lo. Para suprir a bola de neve e o círculo vicioso que transformei essa suprisão de coisas. Sinto agora vontade de colocar minha mochila nas costas e sair pelo mundo. Câmera na mão e sair registrando pessoa por pessoa que eu conhecer, não passar com elas mais que um dia e ir embora de novo. Sei que quase todas as pessoas já tiveram essa mesma vontade, e creio que todas elas queriam suprir algo a minha é para disfarçar a dor de um vazio.

Luzes



Ainda carrego comigo muito da minha infância e uma das coisas que mais lembro é de um tênis com "luzinhas" que ganhei. Foi um dos meus melhores presente, tanto que nunca o esqueci. Eu andava olhando para o chão fascinada pelas "luzinhas" e por isso saia trombando em tudo a minha frente. Ficava pulando e olhando para elas. Não tenho mais esse tênis. Porém ainda vivo alucinada com todas as luzes. Elas estão por todos os lados na cidade de BH tanto que até apagaram as estrelas, segundo meu amigo Hélio. Ainda fico boba, alucinada com aquele monte de pontinhos luminosos. Todos os dias dentro do ônibus quase quebro o pescoço para olhar as luzes da cidade. Passo em uma parte alta e fico o tempo todo encantada com os focos de luz, tão coloridos. Confesso que quanto mais longe de mim eles estão mais eu gosto, porque eles ficam mais brilhantes e se transforma em muitos. Todos os dias antes de dormir dou uma olhada para as luzes da cidade da janela do meu quarto. Eu gosto mesmo das luzes da cidade, embora também sinta falta das lindas estrelas no céu. Gosto também do reflexo das luzes na água, são sempre lindos. As luzes me trazem uma sensação de calmaria, acho que elas são grande motivo para eu gostar tanto do natal, todos aqueles pisca-pisca são um pariso para mim. Finalizo aqui esse texto e vou olhar as luzes antes de dormir.

São tempos difíceis para os sonhadores


As nuvens dançavam em um céu que parecia mais azul que o de costume. Um arco íris imenso me lembrava o tempo dos ursinhos carinhosos e o sol, reluzente, me fazia enxergar as cores do mundo. Nas ruas pessoas pintavam os muros e as calçadas com as cores do Almodovar. Muitos pedestres caminhavam calmamente, volta e meia aconteciam uns abraços surpresa. Os carros andavam de forma a combinar suas cores. Não haviam sinais para pedestres, porque os carros os esperavam atravessar. Logo cedinho foi servido um café comunitário, capuccino com torradas e geleia de goiaba. Nos muros também haviam pessoas escrevendo poesias, frases de alegria, de amor, de carinho e etc. Ao meio dia a praça sete recebeu a maior panela do mundo com uma macarronada onde as pessoas podiam nadar e comer. Sucos de vários sabores e cores e uma deliciosa torta de morango como sobremesa foram servidaos em uma imensa mesa improvisa com madeira e uma toalha xadrez. As árvores floreciam por toda parte, ainda que não fosse primavera. Ao entardecer, bandas espalhadas por toda a cidade tocavam a trilha sonora do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Era unissono pela cidade inteira. Peças de teatro, mágicos e artistas de rua em geral animavam os caminhos. Bem a tardinha o sol vai dando seu adeus e vem a lua compor a noite. As luzes da cidade se acendem, coloridas ainda Almodovar. Pela cidade várias torres enormes que as pessoas subiam para enxergam todo o seu colorido. Aqueles pontinhos reluzentes abduziam os olhares atentos. No frio pavoroso, muito chocolate quente para todos. E as casas, todas sem muros, iam se completando com seus moradores. Os quartos continham abajures, endredons, almofadas, tudo muito colorido. Chegando ao fim do dia, as pessoas encontraram um acalanto, recostando e encaixando perfeitamente suas cabeças em seus travesseiros fofinhos.

Mas são tempos difíceis para os sonhadores.

"Adeptos do casamentos imediato"

Esses dias encontrei uma comunidade bem engraçada no site de relacionamentos orkut, ela se chama Adeptos do casamento imediato, a descrição era a seguinte:

"Motivados pela emoção do momento, muitas vezes deixamos a razão de lado...
— Case comigo.
— Caso. Agora."

A comunidade tem 6.401 membros, se todos realmente são adeptos a isso eu não sei, mas que é gente a beça isso é. Lendo alguns tópicos vejo muitas pessoas procurando alguém para se casar, a estilo de anúncio de jornal, com o telefone trocado pelo perfil no site. Alguns membros da comunidade parecem levar bem a sério essa coisa dos anúncios, embora outros entendam a comunidade como uma grande brincadeira. Já pensou se algum desses anúncios vinga e as pessoas se casam por ali? Ainda nos tópicos duas pessoas contam suas experiências casar após um mês de namoro e de estarem felizes. Fala-se também de divorcio imediato com um certo humor. É engraçado porque lendo assim parece completamente absurdo, mas confesso que já tive vontade de casar assim repentinamente. São realmente momentos em que estamos tão envolvidos com a situação que queremos ela "para sempre" e ai dane-se as dívidas, brigas ou problemas conjugais queremos mais é casar logo e viver junto até o fim. Casamento é um tema estranho ele já teve vários significados, da obrigação ao amor. Agora tomou esse estranho sentido de motivação pela emoção. E cada vez mais temos notícias de pessoas que casam imediatamente e que são felizes. Bom eu só digo uma coisa meu orfão coração e pelo visto nem tem orfão assim, espera se casar. A bicicleta compro depois. Acabo de clicar em participar na comunidade e me tornei uma adepta do casamento imediato.

Momento Amelie Poulain



Trecho do filme: O Fabuloso Destino de Amelie Poulain:

"Ela parece distante... talvez seja porque está pensando em alguém.

- Em alguém do quadro?

- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.

- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.

- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.

- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?"

Eu me pergunto quem vai pôr ordem? Quem??
Tem filmes que me sinto parte deles.

Com açucar, com afeto e com fim.


-Um café por favor
-Grande ou pequeno?
-Médio.
-Com açucar ou sem açucar?
-Com bastante açucar por favor.

Moça, você vai levar esse livro? Te adianto que nos primeiros capítulos será tudo normal, mas ao longo do tempo você vai começar a sentir uma afeição por ele e vai começar a querer lê-lo cada vez mais e mais. Um dia você vai ler um capítulo que a fará esquecer de tudo, do céu, da terra, das pessoas a sua volta e do mundo. Você ficará cega e louca para adquirir o livro. Ao longo dos capitulos o livro lhe começa a parecer desinteressante e por mais que você fique relendo o capítulo empolgante o fim não será como esse capítulo. Por força maior você terá que lê-lo até o final. Pode fecha-lo. Acabou. Esquece o mundo paralelo que você criou o autor do livro só o escreveu em um capítulo.

- Está doce o suficiente?
- Não. Está um pouco amargo, mas pode deixar assim.
- Sabe moço, as vezes as coisas acabam antes dos nossos sonhos.
- De que você está falando moça?
- Do fim.
- Fim do que?
- Fim do que nunca começamos.
- Como pode?
- Um episódio pode iniciar algo que nunca exista, e um dia acaba.
- Mas porque nunca existiu?
- Alguém teve medo, alguém sempre tem medo.
- Sei.
- E hora de eu ir embora também, sentido o estranho sentimento de perda.
- Perdeu o que?
- As esperanças. Quanto é o café?
- Tá ai na notinha.
- Um alto preço.
- É assim, você não quis tomar o café?
- Tem razão. Adeus ou talvez até mais. Obrigado pelo café com prosa.
- Seu troco.
- Pode ficar só vou guardar com esmero essa conversa, não vou levar mais nada daqui.



O cobertor.


Sempre gostei de frio. Os abraços são mais fofinhos e aconchegantes. As pessoas de blusa de moleton, cachecol, calça cumprida, luvas, pessoas se auto apertando, gosto de tudo isso. É mais confortável para ver filme e eu posso passar o dia todo de meia. Aliás as meias, acho elas uma delicinha, brancas, amarelas cheguei, pretas básica, coloridas, listradas, novas, velhas, adoro usa-las. Ah!! As meias.
E tem mais uma coisa que tanto gosto no frio: meus cobertores. Hum!! Como eles são aconchegantes e macios. Eu ainda tenho meu primeiro cobertozinho, tenho ainda? Acho que sim. Ele é azul, curtinho e com as bordas brancas, mas hoje cresci (ao menos um pouco) e é meu edredon que me acompanha. No frio é a oportunidade perfeita para me encher deles. Colocar meus cobertores e senti-los quase como um abraço. Em segundos o frio se transforma em um calor não muito grande, mas exato e gostoso. Tem sido assim esses dias, se muitas vezes falta calor humano nessa vida corrida, sobra cobertor nas minhas noites solitárias.

A bicicleta


As vezes queremos tanto alguma coisa que ficamos cegos com o resto do mundo. Quando não conseguimos o que almejamos, sentimos uma decepção enorme. Sabe aquele papo de que se você lutar você consegue? Acho que é isso que mais nos frusta. Ficamos pensando que não lutamos o suficiente. Mas não vejo isso bem assim. Porque tem coisas na vida que mesmo se lutarmos muito não vamos conseguir.
Quando penso nisso, lembro-me de um episódio da minha infância. Fui com a escola para uma Transitolândia(acho que era esse nome), chegando lá tinham várias bicicletas e uma pista de carros com sinal de trânsito, placas de pare, faixa de pedestres, etc. Eu, que sempre tive essa estatura nada avantajada, não "dava pé" nas bicicletas. Mas adorava andar de bicicleta, por isso quis subir nela mesmo assim. Lembro que a professora me aconselhou a não subir, mas eu cismei que queria andar nela. Então subi, e como não alcaçava o banco tive que sentar no quadro. No começo estava tudo bem, até que veio um morro e eu resolvi enfretar o desafio de descê-lo. No meio da descida perdi o pedal, e fui vendo céu e chão em alguns instantes. Era como estar bebada e tudo girar rapidamente. Meus braços e minhas pernas começaram a doer. Sangrou bastante, as professoras correram para me socorrer, mas criança acostumada a cair, eu nem chorei, na verdade nem liguei, só fiquei triste porque não podia andar na tal bicicleta de novo.
Recorro a esse episódio para pensar que muitas vezes não somos "grandes" o suficiente para subir em algumas bicicletas. Se fosse hoje eu alcançaria o pedal tranquilamente, mas na época aquela bicicleta não era para mim eu precisava crescer mais. Precisava andar primeiro em bicicletas menores que se adequavam a meu tamanho para depois subir em uma grande. Por maior que fosse minha vontade de pedalar a "magrela" eu não ia conseguir, pois ela era muito grande para mim.
Hoje minha vida, muitas vezes precoce para mim, me coloca diante de uma bicicleta que meus pés não alcançam. E quando não consigo pedala-la me decepciono. Mas depois reflito que eu preciso amadurecer mais, que talvez aquela bicicleta não seja para mim naquele momento. Preciso crecer e amadurecer e se eu tentar e cair. Não importa que sangre, devo me levantar, porque cresci acustumada a cair. Essa história da bicicleta é uma calma para meu coração.

Fim do encantamento


Eu ainda guardo a frase de uma amiga “o encantamento é a mola propulsora”. De verdade, é mesmo. Encanto-me facilmente por algo ou alguém e me desencanto facilmente também. Quando estou encantada crio um universo em torno do algo ou alguém. Tanto que chego a arrepiar, a ter pressa de viver. É extremamente intenso. Mas um dia olho para esse encantamento e não encontro mais sentido. Acho o alguém ou o algo bobo. Aliás, acho tudo que vivi em torno desse encantamento totalmente bobo. Sinto até certa vergonha interna. Fico olhando para o encantamento com o mesmo olhar de quem derrubou um leite no chão.

É como comer uma barra de chocolate. No começo é maravilhoso, no meio fico completamente envolvida e fico querendo guardar para mais tarde. Mas uma hora chega ao fim. Nesse momento bebo um copo d’água, para tirar o gosto doce da boca, e continuo minha vida medíocre como se nunca tivesse comido o tal chocolate. Quando o vejo novamente já não sinto vontade de comê-lo. Acho que procuro outras opções na padaria. Raramente como de novo o chocolate. Às vezes tenho uma sensação de perda, assim como tenho de qualquer coisa que passa em minha vida. O medo dessa sensação dificulta o fim do encantamento. Mas vejo esse desencanto como algo positivo. É preciso desapegar, a vida é rotativa. E eu vou aguardar o próximo encantamento já que um chegou ao fim.

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