O estupor de Clarisse

ESTUPOR

esse súbito não te ter
esse estúpido querer
que me faz duvidar
quando eu devia crer

esse sentir-se cair
quando não existe lugar
aonde se possa ir

esse pegar ou largar
essa poesia vulgar
que não me deixa mentir

(Paulo Leminski, La Vien Close, pág 14)


Então Clarisse abriu os olhos, fechou o livro e saiu correndo. Seus passos pareciam arrastados para frente pelo vento. Ela não queria ir, porque só se sentia segura no abismo em que estava lendo Leminski. Por outro lado, no abismo ela não via as flores que nasciam no jardim e nem as crianças que brincavam alegres no parque. No meio de tanta gente na escola nova Clarisse sentia-se atoardoada. Ela tinha tomado uma decisão nova em sua vida e mudanças assustam. Decidiu esquecer um sofrimento, porém esse esquecer gerou mais um sofrimento e ai ela teve que colocar na balança o que dói mais: sofrer se iludindo ou sofrer tentando esquecer o sofrimento? Não encontrou nenhuma resposta nem o google lhe valeu. Saindo da aula e andando pela calçada ela se maltratava com tantas perguntas. Todo esse tormento só tinha uma explicação, Clarisse tinha se apaixonado por um garoto da escola nova e nesses dias o coração anda desalinhado com a razão e não se sabe qual dos dois seguir. A menina achava que ia esbarrar com ele em cada esquina. No meio do caminho para casa o tempo fechou e caiu uma forte chuva, ela ficou sob um pedaço de teto no cantinho da rua, abriu a mochila e tirou uma sombrinha ficou pensando se saia ou não. Mas vale a pena sair na chuva, abrir a sombrinha e não se molhar? Para que ir até ela e se esconder?Ah! Clarisse você tem que entender paixões são assim mesmo, a gente fica besta. São como as chuvas logo passam e depois vem outra, mas aprenda uma coisa menina quando a chuva vier saia e pule em todas as poças d'agua e corra contra a corrente, porque aquela chuva não vai voltar. O tempo está fechado faz tempo e Clarisse tá em dúvida se espera a chuva vir em um lugar coberto, se sai andando com a sombrinha fechado sem medo de chover ou se pede a uns indios que façam a dança da chuva. Ela foi para casa o tempo continuou querendo chover, mas não choveu e agora ela vai dormir colocando a sombrinha em sua bolsa para amanhã.

4 comentários:

ana sandim disse...

"Ela foi para casa o tempo continuou querendo chover, mas não choveu e agora ela vai dormir colocando a sombrinha em sua bolsa para amanhã."

Por que ela sempre esquece e chove.

simples, e fácil de entender. sempre vejo algo subentendido. ( mas talvez só eu veja).
gostei. =)

Débora disse...

lindo! tanto que não sei nem o que dizer aqui...
mas eu precisava passar pra dizer que entendi...e me vi em algumas partes, principalmente nas poças de água...
lindo, lindo, lindo...

ps.: será que Clarisse conseguirá esquecer? e todos os planos dela pra isso, será que vão valer?

João Killer disse...

Acredito que se sofra mais quando escolhe a primeira opção (sofrer se iludindo) Tudo que é ilusão deixa no ar a duvida, e duvidas não é nada satisfatório. Bonito texto. Acredito que perder o medo do que vem e passa é o mais certo a se fazer quando quer ser feliz com as coisas que a vida sempre vai trazer.

Marcos Medeiros Raimundo disse...

Esse texto me gerou uma decisão sabia?
Mas vale lembrar, de que vale a chuva se não se molhar, podemos ficar resfriados, mas é só se cuidar, tomar um banho quente quando chegar em casa que ficamos bons para outra.

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