Um instantizinho, por favor.


Cada fração de segundo da nossa vida é uma coisa nova e tem uma significação diferente. Se der para fragmentar tudo eu ia queria contar cada instantizinho. Cada letra que estou digitando é um pedaçinho de uma história de toda uma vida. Cada passo, olhar, gesto ou grunido escreve uma linha nova. A gente só percebe que cada pedaçinho é uma frase nova quando acontece algo grande demais, como um acidente ou algo assim. E as pessoas vão dizer: -a um minuto ele estava aqui e agora morreu e não está mais. Mas será que alguém percebe quando um ventinho muda um dos fios de seus cabelos de lugar? Será que alguém ainda vê os detalhes da vida?
Quando eu era criança eu gostava de ver as formigas andando em fila dupla e as vezes elas se encontravam e eu achava que elas paravam para se cumprimentar uma a uma, carregando suas comidas. Ficava horas as observando. Sempre gostei de olhar os pingos d'agua tocarem o chão. Ficava vendo o splash de cada um e sempre achava que uns levantavam mais água que os outros. A água sempre me fascinou, quando eu era criança não tinha diversão melhor correr na enxurrada no sentido contrário. Cresci, ou talvez não, e continuei correndo contra a corrente. Ainda olho para a enxorrada e penso em correr nela, mas não sei se ainda tenho a mesma alegria e força para ir contra a água, acho que agora vou sendo levada. As vezes é meio cômodo.
Hoje já não tenho mais ousadia para pular nas poças de água e agora entendo o que minha mãe dizia sobre a enxurrada ser suja e perigosa. Perdi a ousadia da infância e as vezes tenho medo de que a enxurrada do tempo tenha levado com ele a minha capacidade de ver cada instantizinho, cada segundinho, cada formiguinha da minha vida.
Ao mesmo tempo eu fico catando cada pedaçinho e vou colando com cola bastão para ficar fácil de descolar e colar depois cada hora de um jeito diferente. Eu? Qual dos meus eus? cada instantizinhos somos uma pessoa diferente. Cada formiguinha que passa nossa mente se desenvolve e se muda um pouquinho, num intante a formiguinha estava aqui e depois ela já está lá. E o lugar por onde ela passou já não é mais o mesmo e não somos mais os mesmos. Para cada pessoa somos alguém. Para algumas pessoas eu sou trêmula e cada instantizinho me parece contado, vejo cada olhar, sinto cada vento, cada gesto. Nesses pequenos instantizinhos vejo cada pedaçinho da minha vida.
Não dá para fugir da gente e nem dá para fugir do que os instantizinhos querem nos proporcionar. A vida vai ser o que ela tiver que ser, mas com nossa experiência podemos ir construindo os instantizinhos. Alguns eu gostaria segurar um pouquinho, mas eles vão junto com a enxurrada as vezes tenho a imprensão de que a a água tá correndo e que eu tô parada no mesmo lugar. Ela vai levando tudo e eu não seguro nada. As vezes esses instantizinhos são tão importantes, são pequenos olhares, um toque e que eu acho que ninguém mais tá se importando. Eu plantei um brotinho de uma florzinha e vou ficar daqui olhando ele crescer cada instantizinho e não vou dormir e só vou comer olhando para ele, ir crescendo e crescendo. Até ela crescer desabrochar e eu vou ir regando para ver os pingos de água grudando nela e vou ver cada petala cair e ir embora com o vento e cada nova que nascer. Ontem o João me pergunto o que eu faço para voltar a sonhar e eu respondi: - "Assisto Amelie Poulain." As vezes penso que só os franceses sabem ver os detalhizinhos da vida, só eles enxergam cada instantizinho separadamente. Seria o amor francês? Será que só os franceses sabem amar? Então, você tem um instante, por favor?


"Nos meus sonhos eu fujo Faço as malas e sumo Vou andando devagar pra você me alcançar ..."
Thiago Pethit



6 comentários:

Marcos Medeiros Raimundo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcos Medeiros Raimundo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ana sandim disse...

Para você todos tem um instantizinho.
Mas lendo e relendo está obra de arte. eu discordo de você, eis que eu no auge dos 22, eu corro e pulo nas poças. observo cada detalhe e ainda sigo as formigas. pois elas tem um a direção sempre a seguir, msm que parem para cumprimentar, no final do dias estão todas no aconchego do formigueiro. queria ser uma formiga, hoje pelo menos eu teria um destino ao fim do dia. ( sempre complexa a ana)
adorei.. cuide-se.

Débora disse...

...que texto lindo! Lindo do começo ao fim... quando você diz "Será que alguém ainda vê os detalhes da vida?" fiquei me fazendo a mesma pergunta: será que alguém ainda vê? Aí eu já pensei nos instantezinhos, que a gente tantas vezes deixa passar... "A vida vai ser o que ela tiver que ser".
Aí você diz de Amélie, e termina com Thiago Pethit e eu aqui: encantada com um dos textos mais bonitos que já li...
e é melhor parar logo senão vou escrever outro texto ao invés de comentário...rs
beijo moça! Adorei...

Hélio Monteiro disse...

Águas de chuva em tempos que eu nem tinha um metro de altura sequer! Acrescento os barquinhos que eu fazia com as folhas das árvores. Boas investidas!!!

João Killer disse...

Perfeito como sempre. Um instante pode ser um desfecho. Então você pode ter todos os instantes. Acho que não são só os franceses que sabem sonhar ou ver os pequenos detalhes da vida. Se não teríamos que pesquisar a nacionalidade minha, sua e de alguns outros amigos em comum....rsrs Realmente assistir Amelie foi a melhor resposta eficiente que eu tive no dia. Assim que terminei de assistir meu único medo era de pensar que foi só mais um filme bobo, mas não, assim que acabei de vê, minha vontade foi de sair por esse mundo afora ajudando a todos se acharem e vê esse simples. Talvez os Brasileiros precisem de mais Amelie’s pra vê a vida com os seus detalhes. Enfim, acho que fui longe demais...rsrsrrs Bom te ler.

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