Clarisse e o cinema


Clarisse foi sozinha ao cinema. Essa não era sua vontade, mas a falta de companhia fez com que ela tomasse essa decisão. Não que ela se importe, pois sempre foi sozinha ao cinema. Esse é o único lugar que ela se sente bem sem companhia. Para variar, ela saiu de casa atrasada e pegou o ônibus. Sempre que utiliza o ônibus ela coloca o fone de ouvido, porque não gosta de ouvir conversas alheias. Mas nesse dia ela quis fazer parte daquele ambiente, talvez para recompensar o tempo que ficaria sozinha. Clarisse sentou nos últimos bancos do veículo, ela sentou-se bem no meio. Do seu lado direito um rapaz tomava cerveja e do lado esquerdo uma moça equilibrava um caneca na mão, no banco da frente uma senhora e duas crianças comiam chocolates. Clarisse lembrou-se do dia anterior que ela também pegou o ônibus e foi sem o fone. Ela ouviu uma moça dizer: "Já está tarde motorista não é hora para gentileza." Naquele momento a menina sentiu um incomôdo gigantesco. Sentiu vontade de virar para trás e avisar a moça que sempre é hora para gentiliza. Ta ai, tem três coisas que Clarisse muito preza: gentileza, educação e respeito.
A menina chegou ao cinema e pediu seu bilhete, a moça da bilheteria perguntou: "- Tem mais alguém com você?" Nessa hora Clarisse sentiu-se um pouco mal, sensação estranha. Era estranho ser sozinha ali. Na fila, ela ia vendo os solitários encontrarem seus pares. A sala que ela assistiria o filme estava repleta de casais. Mas bastou começar o filme para que a menina esquecesse o universo ao seu redor. As imagens na telona deixaram Clarisse atordoada, os personagens conversavam consigo mesmo e tinham relações amorosas turbulentas. Ao mesmo tempo a menina sorriu diversas vezes se vendo e achando cômicas aquelas situações. Ao sair do cinema encontrou Pedro e Marta, discutiram os filmes e jogaram conversa fora. Clarisse ficou feliz, talvez não tivesse outra oportunidade de se encontrar com essas pessoas e de bater um bom papo se tivesse planejado isso. Essa foi uma das raras vezes que sua solidão em publico a deixou feliz.

4 comentários:

João Killer disse...

Clarisse como sempre me surpreende com suas histórias. Às vezes parece ser tão real. Bom saber que a “solidão” foi interrompida por Pedro e Marta. Às vezes é bom encontrar alguém que nos faça encontrar em meio à multidão, nem que seja pra jogar conversa fora.

ana sandim disse...

eu me lembro de ter comentado.. aff

adoro a leveza de cada palavra que você escreve. e neste texto tenho algo a dizer a solidão é uma velha amiga, sem se perceber ela sempre está com nós. e um detalhe quando saimos sozinhos.. saimos com todo mundo.. ( lembra disso?)
enfim.. adoro as historias de Clarisse.

Juliane Schlosser disse...

Eu só fui no cinema uma vez, achei bacana. Não fui outras vezes pela mania de sempre chamar as pessoas. Quem sabe um dia volto lá sozinha.

Marcos Medeiros Raimundo disse...

Cada dia mais Clarisse me fascina, palavras sutis, um tiquinho de tristeza, e muita beleza.
Espero que um dia o projetor seja sua mente, esse mundo que pisamos, seja o mundo de Clarisse, e andaremos sobre as estrelas. Esse sim seria um belo filme.

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