Roubando Tulipas



Um losango ou um quadrado? Clarisse ficou esperando passar o filme da sua vida em preto e branco na sua cabeça, como ela via nos filmes, mas não aconteceu. Talvez porque ela estivesse ocupada demais com a imagem do carro que muito lhe parecia um losango ao invés de um quadrado. Estava tudo meio desfocado, ela se sentia bebada, como se tivesse tomado 5 doses de tekila, mas ela não tinha bebido nada. De repente, sentiu algumas gotas de sangue escorrerem sob seu rosto e cairem na grama. A menina sorriu ao ver a cena, sempre gostou da combinação verde-vermelho. Foi olhando para a grama que Clarisse percebeu a situação mais inusitada, ela estava de cabeça para baixo. Por instantes, a menina pensou em como seria se tudo fosse de cabeça para baixo. Concluiu que se vivessemos "ao contrário" pisariamos nas estrelas e na lua e sonhariamos em roubar em uma flor do chão. Num breve momento de lucidez, Clarisse começou a olhar a situação como um todo e não só as partes que ela tinha visto. Foi então que percebeu que estava completamente presa e a única coisa livre era os seus cabelos. No meio do nada Clarisse se sentiu mais sozinha do que nunca. Sabia que não adiantava gritar e que nada resolveria. Dependurada do lado de fora do carro e olhando pelo vidro da frente continuou encucada sem saber se seu carro tinha um formato quadrado ou losangular. Começou a forçar sua mente para ver o filme de sua vida, ficou esperando ver a luz no fim do tunel, porém só lhe restou a trilha sonora, uma sirine. Lhe pareceu que alguém ia aumentando o volume lentamente. E suas forças iam em sentido contrário, acabando rapidamente, Clarisse foi fechando os olhos e se entregando aos poucos. No auge de seu delirio ela estava pisando nas estrelas e na lua, ao mesmo tempo se perguntava olhando para o chão: "Como eu vou fazer para roubar aquelas tulipas?"

Manchete do dia: "Jovem sofre acidente na BR 381 e passa bem."

Ps: Não eu não queria mesmo matá-la. rsrs



4 comentários:

João Killer disse...

Meu Deus me surpreendeu intensamente nesse texto. Acho que nunca esperei ler algo desse tipo de você. Prendeu-me do começo ao fim e me fez ler mais de uma vez. Belíssimo texto, pois trata de um momento não muito agradável, mas com um olhar, belo, puro, simples e alegre. Achei que estava querendo dar um fim pras histórias da Clarisse, ainda bem que no final colocou que não era essa a intenção. Gostei muito, acho que você é capaz sim de escrever algo não completamente alegre (igual te falei aquele dia) lógico que sempre terá esse jeito Natália de ver e ser nos textos, mas que consegue falar de situações que não são completamente bonitas como o texto de hoje. Parabéns pela capacidade e criatividade.

Marcelo Delapadue disse...

Momentos como esse dão um novo folego para nossas vidas, a sensação "da morte" liberta momentaneamente a importância de nossas vidas. A vida só tem valor nos momentos em que deparamos com a morte. No dia a dia perdemos esquecemos dessa importância com inutilidades. Deveriamos ser mais intensos.

Marcos Medeiros Raimundo disse...

Este texto é impressionante na beleza abordada, lindíssimo, pois você conseguiu dar um ar belo para algo que nós vulgarizamos: a morte. A dor, tudo isso é vulgarizado nos outros tipos de Jornalismo, e aqui podemos ver o mundo belo, que apesar das crueldades e dos pesares, pulso, sangra, vive.

Hélio Monteiro disse...

Costumava ficar de cabeca para baixo no sofa, enquanto a minha familia assistia a novela com os pes no chao!!! Imagina a fotografia!

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