Pai

Os dedos dele acariciavam minha franja lentamente, iam tocando meus cabelos.
- Pai, como é ter 73 anos?
- É já ter vivido muita coisa, minha filha.
Deitada em sua barriga sinto ele esvaziar os anos.
- Pai, se lembra quando eu era criança e ficava acordada até de madrugada lhe esperando?
- E eu sempre lhe trazia um chocolate.
Naquele momento, pensei que ele ainda me traz um chocolate as vezes. Talvez eu é que tenha esquecido dos tempos em que eu o esperava madrugada a dentro.
- Eu sinto saudades de ser criança pai, sinto falta de jogar video game até tarde e de não ter responsabilidades.
- A minha filha a vida é dificil só no começo, depois você se acostuma.
Eu quis pedir pra que ele fosse pro quarto e contasse uma história pra eu dormir. Um desses contos de fadas que eu acreditava quando a vida num era dura.
- Pai você se lembra quando eu sentia frio a noite e você ia lá me cobrir. Se lembra de você na beira da cama me contanto historias. Se lembra que você pedia pra mãe não me bater. Se lembra que eu te pedia para alugar "Alladim" todo fim de semana, até que você me deu o filme.
Sinto os braços dele cairem e um leve ronco.
- É pai essa noite sou eu que vou te cobrir.
Boa noite, dou-lhe um beijo na testa.
Vou sozinha para meu quarto. Na cabeceira, Mario Quintana me acompanha e logo reconheço: É por isso que inventaram os livros, porque os pais envelhecem. Foi pra isso que inventaram os livros, pra isso. Como eu nunca havia percebido. Como?

4 comentários:

G.C disse...

minha mãe tinha uma série de hábitos comigo que não manteve depois que cresci. entendo que a maioria deles não é mais necessário, mas era um tempo gostoso...

mas eu acho bom, mesmo que seja inconciente, que os pais entendem a hora de ler um conto de fadas pra gente. sabe? é como 'não viva mais de ilusões', e isso é bom, eu acho...

Mário Quintana e um conto de fadas... achei bacana essa contradição que vc criou no texto.

beijo, queridona

Camila Sol disse...

Nossa...que saudade que deu de um pai agora!!!
Lindo texto...

Marcos Medeiros Raimundo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Joãoooooooo disse...

Adorei seu texto! Mostra bem a alma suave e doce que possui Nati!
Eu que estou distante do meu pai que mora no interior, ao ler tão singelas e afetuosas frases, só consegui vializar também as cenas de carinho que trocávamos...saudade gostosa que senti! Deu vontade de sair correndo para minha cidade para abraçá-lo!Texto bom é texto que mexe conosco e você pequena fisgou-me na alma este seu texto!
Não tem como não te visitar por aqui. Pode passar algum tempo, mas sempre retorno porque aqui me sinto bem lendo-a!
Beijos suave nobre alma!
Seu amigo,
Joãooooooo

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