auto conhecimento

era eu despindo minha própria pele
revirando-me pelo avesso
estraçalhada entre o chão e a terra
meu coração ainda pulsa
os pulmões morrem aspirando o que eu nunca quis
minutos antes eu queria um cigarro
era pra queimar o resto de minha pleura
aquela parte mais sensível do meu corpo
minhas viceras disputavam um tênue espaço com meu coração
no canto, meus olhos se assustam por não conhecer aquelas partes de mim
minha garganta ficou sem nada pra dizer
destrui-me por não saber o que a anatomia faria de mim
morri ali, na rua rua do presente, quase esquina com o futuro
ah! como foi doce o chá que tomei no bar do passado

anjo da guarda

anjo da guarda, onde tu estavas todos esses anos?
por que tu me deixastes tão só?
ah meu anjinho como crescestes
tu já nem me parece mais o mesmo
passei mals bocados sem ti
vivi como um cão de rua, abandonada
e agora que me acostumei com essa solidão
que faço meu anjinho? que faço?
trouxestes o almanaque que me explica?
abre na página que decifra as minhas entranhas
coloca um marcador de texto nas minhas fugas solitárias
que eu já nem sei de mim
cadê aquelas minhas fotos em preto e branco?
tu não trouxestes nada né?!
mas o que importa é sua vinda

agora vai meu anjinho da guarda
vai que eu me acostumei a ser forte sem ti
me olha de longe e quando veres um brilho do céu
venha secar minhas lagrimas

ah meu anjinho! ah!

vermelho

sou um entardecer de sol
me pondo me pondo
sou o céu vermelho
que o balanço das águas da lagoa refletem
como o meu coração
que dança dentro do meu corpo
as pessoas na beira da lagoa
refletem os olhos dos peixes que já morreram

a noite inexisto
como a casa na beira da lagoa
a casa sem cômodos
agora nada em mim é cômodo


volta e meia surge uma estrela no céu
e faz brilhar os olhos sofridos da menina na beira da lagoa
a menina que carrega dentro de si um feto
a menina que é um feto
sou agora o nascer do sol
nascendo nascendo
todos os dias

delirio vital

delira-te a vida
arde em paixões febris
inspira sentimentos
traga dor
sopra zelo
embebeda-se de prazer
sorve-se em medo

como queres calma
se teu chão é o céu?
como queres certezas
se vives de sonhos?
como queres estabilidade
se o mundo gira?

a realidade é meu sono
acordo refugiada
no fundo só tenho a ti
só tenho a ti, espelho
as silhuetas namoram
eu sou amante da vida
vou entre os arbustos
colho flores

procuro-te
felicidade aonde estás?
felicidade aonde estás?
felicidade aonde estás?
escuto o eco pelo mundo

Meu coração se espalhou pelo meu sangue e ocupou todo meu corpo, como um andarilho que carrega na mochila todas as culturas do mundo.

sala de espelhos

O suor da minha alma embaça as várias faces de mim.
Espelhos refletem o vazio da minha insônia solitária.
Era o entrelaço de nossas ternuras que eu procurava naquela nudez.
Os livros não escrevem a chuva ácida da mulher que chora naquela poltrona escura.
O quadro nem chega perto de pintar o velho cheio de dentes na boca.
A luz corta a minha carne e corroe os meus ossos.
Os arbustos inspiram minhas viceras mortas.
Eu encontro o passado cheio de roupas.
Meus ombros negam-se a usar vestimentas.
Os meus olhos traduzem o assasinato de minha dor.
Meus braços setenciam o fim do meu calor.
Arranco o espelho e me torno parte dele.
Qualquer aproximação reflete o que me trouxeres.
Não me espere para o jantar.
Tem 14 passos querendo sair de dentro de mim.
Enquanto os pássaros procuram a janela dos meus pulmões,
minhas traqueias gritam o recomeço.
Copyright @ Centopéia | Floral Day theme designed by SimplyWP | Bloggerized by GirlyBlogger