Sobre solidão e amor

Eu tava forçando a mente para ver se lembrava cenas que reconstituiriam o filme preto e branco da minha vida. Sempre me imaginei morrendo dormindo, mas acho que a gente acorda pra morrer. Apesar de estar tudo invertido eu não estava com medo. Me sentia um pouco estranha por morrer sozinha ali, mas acho que ninguém morre com outra pessoa. A morte é a coisa mais solitária da vida. Orson Welles uma vez disse que, "nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos." Acho que ele tem razão, embora tenhamos inventado os laços socias, seremos sempre sozinhos. Agora eu tô aqui culpando a solidão por eu nunca ter me dado bem com o amor ou com os laços sociais. É engraçado essa coisa de amor, eu sempre me apaixonei por guris que aos meus olhos tinham uma sensibilidade e uma doçura incrivel, mas que aos olhos sociais não eram lá muito bacanas. Eu ainda acho que o importante é o que as pessoas são pra gente e o quanto nos fazem bem ou não. Na verdade eu sempre gostei de guris que eram praticamente impossíveis de conseguir. Acho que é essa minha fuga por não saber lidar com o amor. Vivo me encantando o tempo todo e sempre digo que quero alguém pra vida toda, mas acho que só me convem ser for algo intenso. Talvez as coisas que eu consiga, percam a intensidade. Acho que eu realmente nunca me dei bem com laços sociais, sempre tenho medo de invadir o espaço do outro e tenho medo que invandam meu espaço também. Contudo, eu aprendi a lidar com as pessoas, as vezes faço coisas demais por elas e raramente sou retribuida, as vezes não me importo com nada. Passei a maior parte da minha vida sozinha, desde criança, quando eu sabia brincar solitária, mas confesso que as vezes sinto falta de alguém comigo.
Não estou conseguindo me lembrar de nada para o filme, só estou me martirizando por ter escolhido ser sozinha. A solidão dói como as ferragens do carro que agora perfuram o meu peito lentamente. Cada fração de segundo de tempo sozinho é uma dor. Eu decidi colocar a culpa do acidente na minha juventude. Quando a gente é jovem, a gente acredita que nada vai nos acontecer, como se fossemos super herois ou sei lá o que. Ai de repente você se vê preso entre ferragens com tudo de cabeça pra baixo e sozinho, delirando de febre. Só consigo pensar na situação em que estou agora e não sei ao certo o porquê, mas não paro de pensar no amor. Acho que o amor sempre permeou a minha vida, tanto quanto a solidão, por mais contraditório que isso pareça. No ápice do meu delirio, me lembrei do meu último encantamento. Mais um para minha lista dos casos muito dificeis. Um desses encantamentos que surgem pelo que a pessoa é pra você e pelo bem que te faz. Nem chega a ser amor ou gostar, mas é carinho e admiração. A juventude é também a época que a gente mais encontra, ou perde, amor. Somos intensos demais. Mas também somos um pouco solitários, cada um tá preocupado com seu próprio umbigo e as vezes esquecemos de olhar nos olhos dos outros. Acho que nesse acidente, atropelei a mim mesma e matei a solidão e o amor de uma vez só.

5 comentários:

João Killer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Killer disse...

Hoje ninguém mais sonha a dois. O mundo mata o amor, você não precisa fazer isso. Mas se for verdade que ele morre pra nascer novamente em outro lugar e outra forma, fique feliz pois você vai amar novamente. E como você mesmo sempre diz: "são tempos difíceis pra sonhadores." Bom te ler.

G.C disse...

às vezes eu tenho a impressão que quando envolvemos o amor nos nossos 'porques' ele fica mais distante e mais difícil de ser sentido.
Deve ser a quarta vez que eu leio o seu texto... é bom se abrir, tomar a vida não na realidade própria dela, pq em si, viver é uma merda. se existe um encaixe pra todo esse turbilhão de sentimentos, ainda mais quando somos um reflexo da nossa juventude, esse encaixe seria o amor. sentir amor pelo que se vive, já viveu e ainda vai viver. E que seja sentido da maneira mais orgânica possível (e ainda que seja orgânica, caímos na decisão de fazê-lo mecânico pela organicidade). não é uma questão de escolha então... deixá-lo livro pra sofrer menos, mas, ao menos, sofrer melhor.

os tempos sempre serão difíceis, mas se escolhermos dar uma chance pra vida, e conseqüentemente pro amor... talvez viver se torne uma tarefa mais tênue.

Débora disse...

bem que você disse que eu iria gostar desse texto. Gostei de cada pedacinho, me identifiquei com cada frase.
Acho que a gente vive esperando demais...
espera demais das pessoas, espera demais da gente mesmo.
Percebe que as coisas não são como a gente queria que fosse e acaba se magoando.
Não sei se a chave da resolução dos problemas é gostar de quem gosta da gente ou aceitar as pessoas como elas são, ou as duas coisas talvez...
Talvez pensar menos resulte em sofrer menos...
sinceramente: foi um dos textos mais intensos que li aqui.

Hélio Monteiro disse...

Pareceu as rotineiras conversas que tenho com minha consciência... Mais uma vez eu e você, você e eu! <3

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