Mailarina


Mãe e filha estão sentadas sozinhas nos bancos vazios do circo, alguns metros as separam da tenda colorida, lá fora chove. Estavam ali em silêncio por longas horas. Até que a menina tira a mochila das costas e questiona a mãe:
- Mãe me ensina a ser bailarina?
- Filha, isso se aprende na infância.
- Mas mãe eu quero ser bailarina.
- Por que minha filha?
- Porque eu estou cansada de ter que me fantasiar de palhaça para arrancar um sorriso dos lábios alheios. Eu não quero mais ser assistente do homem das facas, estou com medo do globo da morte e hoje a noite terem que revesar lugar com aquele gorila assustador.
- Filha, você quer ser bailarina por que elas usam roupas bonitas?
- Não mãe, quero ser bailarina porque elas deixam seus corpos serem levados pelo embalo da música. Porque elas sabem dar cada passo com uma sútil leveza, se equilibram nas pontas dos pés, se equilibram. Bailarinas dançam mesmo quando não há música, são doces e exprimem calma. Bailarinas não choram.
- Mas filha você precisa se vestir de palhaça, você precisa encantar a plateia com todas as suas mágicas e máscaras.
- Mãe, me ensina a ser bailarina?
- Mãe, me ensina a dançar?
A mãe assustada com aquele pedido, pegou a mão da menina e a levou até o seu camarim, mostrou-lhe uma velha roupa de bailarina, tirou o sapato e lhe mostrou os calos nos pés. Disse-lhe que bailarinas quando dançam não choram, mas também não sorriem. A menina abismada com aquela situação pensou logo em vestir sua roupa de palhaça para alegra a mãe, mas a mãe, mais rápida, colocou a mão em seu ombro e disse:
- Filha me ensina a dançar? Eu desaprendi a equilibrar.
A menina então calçou a velha sapatilha da mãe, vestiu o colan, a saia, levou a mãe para o picadeiro e sem música alguma as duas tentaram dançar. A mãe ajudou a menina a ficar nas pontas dos pés. A menina agradeceu com um sorriso no rosto.
- Mãe, me ensina a dançar?
- Filha, me ensina a ser bailarina?

Dedico este texto ao meu amigo Marcos Medeiros que tanto me encanta com seus textos e também me inspira, como esse que é baseado em seu texto, Pailhaço.

4 comentários:

Marcos Medeiros Raimundo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ana sandim disse...

Achei incrível, que quero um texto deste. Primeiramente tive a adorável leitura de Pailhaço, a agora a da Bailarina.
mágico os texto.
se cuida
abraços.

Marcos Oliveira disse...

Adoro textos que dialogam se... e isso acontece como os dois textos, incrível como textos parecidos podem seguir caminhos diferentes de acordo com o autor.os dois textos tem uma capacidade incrível de prender a atenção e isso é mais que bom.Meus parabéns...aos dois

Débora disse...

gosto um tanto dos seus textos!
E esse me passou algo tão bom!
De tudo tão conturbado e confuso, vem esse texto tão doce e delicado.
Mágico! como disse a Sandim.
um beijo menina.

Copyright @ Centopéia | Floral Day theme designed by SimplyWP | Bloggerized by GirlyBlogger